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Ancelmo

Julho 5, 2009

No Festival Literário Internacional de Paraty de 2004, eu literalmente caí de pára-quedas numa pelada do Chico Buarque contra um time local. Joguei na equipe dos “artistas” e a partida terminou 3 a 2. Depois de uma bela jogada minha pela esquerda, cruzo rasteiro na área para o meu irmão fazer o gol da virada, o gol da vitória.

Cinco anos depois e o compositor de “Mulheres de Atenas” está de volta para divulgar o livro “Leite Derramado”. Eu também. Minha mãe conhece um cara que trabalha com ele. Peço ajuda a ela, ela topa, aceita me ajudar. Meus olhos brilham, minhas chuteiras também. As coloco na mala, dentro de um saco plástico.

Quinta-feira, almoço super cool em Paraty, ela está diante desta pessoa, que conversava com o colunista do jornal O Globo Ancelmo Gois, o mesmo que entregou Adriano, o comedor de cachorro-quente. Mamãe conta como foi a conversa.

- Você sabe se o Chico vai jogar futebol em Paraty dessa vez? Meu filho jogou com ele em 2004 e…

- Não, ele está contundido. Infelizmente não vai ter pelada.

Recebo a notícia com o coração partido e no dia seguinte minha mãe me mostra o jornal e diz:

- Paulo, você sem querer deu uma nota para o Ancelmo Gois. Ele ouviu a minha conversa com Fulano e publicou que o Chico está machucado e não vai ter futebol.

Li a nota, ri um pouco e me servi de suco de laranja.

Open Court

Abril 21, 2009

Estou ainda em Washington D.C. Acordo 8:40 e ligo a TV. O nome do programa eh (nao tem acento orografico no computador do hotel, sorry) “Open Court” ou “Tribunal Aberto”. Caso em questao: um homem e uma mulher na casa dos vinte anos  se conhecem pela internet. Logo no primeiro encontro dos dois, o homem mata a menina com socos e golpes de extintor de incendio.

O tribunal ao conversar com a familia da vitima se refere a ela como “he” e utiliza o nome Justin Zapata, ao inves de Andie Zapata.

Sim, a vitima era um travesti.

Promessa não cumprida

Novembro 21, 2008

Prometi que essa sexta eu iria postar o texto “Como Morrer na Internet”, no qual proponho a criação do incrível site de relacionamento MySpaceInHeaven. Acontece que estou em Punta Del Este (Uruguay) e eu esqueci de passar para o meu mp3 player / pen drive o texto semipronto que seria finalizado no laptop que utilizo neste exato instante. Postaria no blog com a ajuda do wi-fi gratuito fornecido pelo belíssimo hotel Best Western La forêt.

Fiquei realmente muito surpreso quando liguei o computador, abri o site globoesporte.com (minha página inicial do laptop) e visualizei, sem qualquer esforço, que o Brasil tinha aplicado uma goleada de 6 a 2 no time de Cristiano Ronaldo. Não me pediram senha, não houve espera, que maravilha! No post da semana passada, “Tudo tem um preço”, eu disse ao meu professor que o ar que a gente respira é de graça, uma vez que não tinha outra resposta. Agora sei que a internet neste fantástico hotel com piscina aquecida, também é.

Estava tirando um cochilo no meu quarto. Vim aqui para a recepção do hotel escrever este post sem pé nem cabeça e agora ouço “Wonderwall” do Oasis, como música ambiente. Vejo um homem de óculos navegando na internet, em um dos computadores do hotel. É bem provável que ele esteja pagando por isso. Será? Vamos ver.

- Signor…la internet…és quanto por hora?

- Nada, libre!

Puteiro em João Pessoa – Parte 2

Setembro 12, 2008

 

         - Você sabia que este lugar serviu de inspiração para uma música dos Raimundos?

         - Sabia sim. Tem muita gente do Rio que vem pra cá por causa disso, visse?

         - É mesmo? Que legal! Então não sou o único.

         Disse a ela que iria fazer um novo tour pelo local, que tinha muito mais cara de bar do que de prostíbulo. Deviam ter uns três homens para cada mulher, de modo que algumas mesas – eram de plástico, assim como as cadeiras – tinham quatro, cinco, até seis homens, bebendo sem a companhia de uma fêmea se quer. A menina linda, bem vestida e cheirosa continuava exercendo seu trabalho de promoter (perambulando pelas mesas) até que uma nova stripper entrou em cena. Seu show era tão ardente quanto o anterior, citado na Parte 1, a diferença é que esta dançava a um palmo de distância dos clientes – e não era só com os que estavam próximos ao palco.

         - Você ainda está aí, Cíntia?

         - Você quer que eu vá embora?

         - Não, de forma alguma, por mim você pode ficar. Mas é que como te falei, não vou ficar muito tempo, estou exausto.

         - Tudo bem – ela disse, com um quê de tristeza na voz

         Pensei então que por mais que eu tivesse dito que não ficaria muito tempo, assim que ela se sentou, não havia deixado claro que as chances do programa se concretizar eram nulas. Além do que, o nosso papo estava fluindo muito bem e afinal de contas, tempo é dinheiro – sobretudo para ela, numa sexta-feira à noite. Precisava fazer alguma coisa para me redimir.

         - Você não está bebendo nada?

         - Bem que eu gostaria…Mas estou meio sem dinheiro.

         - Deixa essa bebida por minha conta, o que você quer?

         - Whisky com Redbull.

         Foi difícil disfarçar a minha cara de “caralho, me fodi” e pedi pro garçom o cardápio. Disse a ela que queria ordenar uma bebida para mim também quando na verdade queria mesmo era ver o quão afiada era a faca que seria cravada no meu peito.

         - É, acho que por enquanto eu não vou querer nada – disse eu, bastante aliviado, visto que morreria em apenas onze reais (seis do Red Bull e cinco do whisky).  

         - Tô vendo que tem umas mesas que só tem homem. É sempre assim, é? – disse eu, num tom mais baixo que o normal, com medo de alguém ouvir.

         - Se é. A maioria só vem pra beber. Aquele cara ali por exemplo, quase toda sexta tá aí, bebe até cair, mas foder que é bom, nada!

         - Que nem eu, né?

         - Mas você não vem aqui toda semana.

 

         Deixei o lugar quando a moça ainda estava na metade do seu drinque. No caminho da volta, o motorista gordo e simpático se mostrou mais eloqüente que nunca contando suas aventuras sexuais. Contou que na minha idade o colo dele nunca esfriava.

         - Hoje em dia tô pegando muita mulher também, não tenho o que reclamar. Claro que não é a mesma coisa que antes, mas tá ótimo!

         - Você diz puta?

         - Que puta que nada, mulher mermo! Só não pego mais porque o meu corpo não agüenta mais.

         - Entendi.

         - Então quer dizer que você não ficou com nenhuma menina aí hoje?

         - Pois é.

         - É garoto, esse lugar já foi muito melhor. Vou te falar que também não gostei de nenhuma que passou que passou pela porta. Mas escuta aqui, tenho o telefone de três meninas, universitárias, moças de família mesmo, maravilhosas, e que fazem programa – você precisa conhecer! Talvez elas até estejam em algum barzinho perto do hotel. Vou ligar aqui, tá?

         Tudo que eu queria era dormir, mas não podia desapontá-lo. Sua empolgação era tanta que um não como resposta poderia provocar um grave acidente de carro.

         O celular de duas delas estava na caixa postal, mas ele conseguiu falar com a terceira:

         - Não acredito! Você não faz idéia do que acabei de ouvir agora!

         - O quê?

- A mulher não faz mais programa. Nunca vi isso na minha vida, ela é uma ex-puta! – disse ele, emocionado, às gargalhadas.

         Parou o carro no ponto de táxi e ficou mexendo no celular.

         - Bye bye baby! – novamente às gargalhadas.

         - Como?

         - O que eu vou fazer com o telefone de uma ex-puta? – berrou para os outros taxistas, agora em pé, do lado de fora do carro, ao olhar assustado de alguns pedestres.

         - Apaguei, é lógico! Isso não me serve de nada! – ninguém parecia achar muita graça naquela cena esdrúxula, sobretudo os pedestres (destaque para uma uma família com pai, mãe e criança pequena que pegaram a história do ínicio), mas ele estava se divertindo.

 

FIM

“Puteiro em João Pessoa” – Parte 1

Setembro 5, 2008

 

Cheguei ao hotel Tambaú no fim da tarde de sexta-feira, acompanhado de um casal de amigos. Uma empresa local, que já prestou alguns serviços para a empresa que eu trabalho, bancou o hotel e as passagens de avião. Teríamos um fim de semana primoroso na única capital brasileira que tem nome de gente – João Pessoa.

Como tinha dormido muito pouco de quinta para sexta – cerca de duas horas – estava exausto. Após um pequeno tour pelo luxuoso hotel, que era colado na praia homônima, dormi umas quatro horas. Acordei do nada, consultei o relógio celular e já passava das nove horas. Como eu já estava de pé, achei que eu devia conhecer um pouco a noite de João Pessoa antes de dormir até o dia seguinte. Conversei com um taxista gordo e simpático num ponto em frente ao hotel o suficiente para entender que eu estava no coração da cidade. A principal boîte, Incógnito, ficava a um minuto dali e os principais restaurantes, idem. Pelo que entendi, além da Incógnito, só tinha mais uma boîte em João Pessoa porque o restante se resumia a bares que tocavam forró. Passei na porta da Incógnito e descobri que só abria às dez. Caminhei um pouco sem rumo e retornei ao hotel – deixaria a discoteca para o dia seguinte.

Ao entrar na recepção, me deparei com o grupo Paralamas do Sucesso tocando no som ambiente, o que me fez lembrar de outras bandas de rock da época, como Titãs e Barão Vermelho, o que me fez lembrar de outras de Brasília, que é a terra natal dos Paralamas, como os Raimundos. Tenho um grande amigo que sabia tocar no violão quase todas as músicas desse grupo, que mistura música nordestina com rock, nos tempos de colégio. Eu achava as letras muito vulgares – só ouvia Green Day naquela época – mas de tanto ouvir ele tocando, passei a gostar também. Passei a ver que eles eram diferentes, originais e faziam um rock de qualidade, não eram um grupo qualquer. Com tantos pensamentos brotando na minha mente durante o trajeto até o meu quarto, pensei nas minhas próprias músicas, no livro insano que eu estava escrevendo, no que os meus amigos estariam fazendo naquela hora, no futuro, em dinheiro, na sauna que eu tinha feito no mesmo dia, nas músicas interessantes do novo Cd do Panic At The Disco que lembravam os Beatles que eu tinha escutado pela primeira vez dois dias antes, no livro autobiográfico do Eric Clapton que eu estava prestes a terminar, até voltar aos Raimundos. Dessa vez, minha mente foi fazendo uma retrospectiva dos seus grandes hits: “Tora Tora”, “Eu Quero Ver o Oco”, “Puteiro em João Pessoa”, “Esporrei Na Manivela”, “A Mais Pedida”, “Nega Jurema”, entre outros.

Tirei a roupa, deitei na cama e liguei a TV. Só depois de cantarolar algumas vezes o refrão de “Puteiro em João Pessoa” que eu me dei conta de que estava em João Pessoa e tinha a grande chance de conhecer o lugar que serviu de inspiração para uma das maiores músicas do rock nacional. Apesar de sua importância histórica, não constava em nenhum guia turístico “sério” da cidade.

Precisava lembrar o nome do estabelecimento em questão. Voltei à recepção do hotel:

- Boa noite. Tem internet no hotel?

- Temos um servidor, mas o senhor tem computador com wi-fi?

- Tenho.

Ganhei uma senha (é claro que paguei por isso) e entrei no site Cifra Club para consultar a letra da canção:

Dudu já tá alucinado, já é meio caminho andado
           Pra rolinha comer alpiste
           E pro rapaz não ficar triste vamo onde as nêga são ativa
           Não há em toda João Pessoa lugar melhor que o Roda Viva”

         Fui conversar novamente com o taxista gordo e simpático:

         - Eu estava querendo ir no Roda Viva. É aquele puteiro que serviu de inspiração para a música dos Raimundos, você conhece?

         - Claro. Levo muito passageiro lá. É o melhor da cidade. Só que agora não se chama mais Roda Viva.

         Ele disse que o nome era “Efectus”, algo assim, não me lembro mais. Porém, o hotel ao lado, que serve de “matadouro”, ainda se chama Roda Viva. Ficavam à beira da estrada, no meio do nada, há uns vinte minutos do hotel. Disse ao taxista que não iria demorar muito, só queria mesmo dar um “confere” no lugar e ele ficou me esperando do lado de fora depois de ter se irritado com o segurança, que não o deixou  entrar de graça na casa, pois ele havia “esquecido” o documento de taxista. Detalhe: a entrada era cinco reais com direito a um refigerante, uma cerveja ou uma dose de rum. No caminho de volta, ele disse que era o “pica” do ponto de táxi do hotel e que não ia deixar barato. Não entendo o que leva pessoas como ele, que tem algum dinheiro, se irritar por causa de cinco reais.

         Escolhi a dose de rum e pedi uma Coca-Cola extra – para misturar com o rum, bela combinação por sinal, recomendo. Uma menina linda, bem vestida e cheirosa se aproximou da minha mesa.

         - Você está sozinho?

         - Estou sim, pode sentar.

         - Eu sou a esposa do garçom, visse? Vou chamar uma menina para você conhecer.

         A tal moça era fraca, assim como todas as outras que estavam “disponíveis” na casa.

         - Oi, como você se chama?

         - Paulo, e você?

         O nome dela era Cíntia. Não fedia como a mulher descrita na letra da música – “era uma quenga fedorenta, daquelas da mais nojenta” – mas era sem dúvida nojenta. O papo começou trivial, mas depois ficou interessante:

         - Já deu alguma merda aqui? Do tipo, chegar o namorado de alguma menina?

         - Já. Tem um cara que bem tirou uma menina daqui pra casar com ela, visse? Ele viaja muito a trabalho, acho que é caminhoneiro. Então teve uma vez que ele disse que voltaria num domingo, mas apareceu aqui no sábado, sem avisar. A menina tava aqui, você acredita?

         - Caramba, e aí?

         - Ele nem fez escandâlo. A menina disse que só tinha vindo pra matar a saudade do lugar e das colegas.

         - E ele acreditou?

         - Não sei. Mas de lá pra cá sempre que ele viaja, leva ela junto. Nunca mais vi essa moça aqui não, visse?

         - E você? Nunca passou por um problema desses?

         - Mais ou menos. Eu moro em Recife. Já fui casada, tenho uma filha pequena. Não queria que o meu ex-marido soubesse, mas ao mesmo tempo queria contar a ele. Falta coragem, visse?

         - E se um dia ele aparecer aqui? O que você faria?

         - Faria nada. Falaria com ele numa boa e assumiria o meu trabalho. Mas eu sei que ele suspeita porque já veio uns colegas dele aqui que me caguetaram pra ele, visse? Eu nego até a morte, digo que não sou eu, mas como te falei, não aguento mais isso, queria contar logo pra ele.

         - Entendi, deve ser chato mesmo.

         Enquanto isso, um strip-tease assaz ardente rolava na nossa frente ao som de baladas pop deprê melódicas dos anos 80 que dividia as atenções com a novela das oito que passava numa TV, à minha esquerda, cujo volume era quase tão alto quanto à música.       

         - Você tem orkut?

- Como?

- Você tem orkut?

- Tenho.

- Me adiciona lá então Paulo. Você só não pode me mandar recado falando daqui, visse?

- Ah sim, pode deixar.

É claro que eu “esqueci” o guardanapo com o e-mail dela no hotel.

 

CONTINUA SEMANA QUE VEM