Cheguei ao hotel Tambaú no fim da tarde de sexta-feira, acompanhado de um casal de amigos. Uma empresa local, que já prestou alguns serviços para a empresa que eu trabalho, bancou o hotel e as passagens de avião. Teríamos um fim de semana primoroso na única capital brasileira que tem nome de gente – João Pessoa.
Como tinha dormido muito pouco de quinta para sexta – cerca de duas horas – estava exausto. Após um pequeno tour pelo luxuoso hotel, que era colado na praia homônima, dormi umas quatro horas. Acordei do nada, consultei o relógio celular e já passava das nove horas. Como eu já estava de pé, achei que eu devia conhecer um pouco a noite de João Pessoa antes de dormir até o dia seguinte. Conversei com um taxista gordo e simpático num ponto em frente ao hotel o suficiente para entender que eu estava no coração da cidade. A principal boîte, Incógnito, ficava a um minuto dali e os principais restaurantes, idem. Pelo que entendi, além da Incógnito, só tinha mais uma boîte em João Pessoa porque o restante se resumia a bares que tocavam forró. Passei na porta da Incógnito e descobri que só abria às dez. Caminhei um pouco sem rumo e retornei ao hotel – deixaria a discoteca para o dia seguinte.
Ao entrar na recepção, me deparei com o grupo Paralamas do Sucesso tocando no som ambiente, o que me fez lembrar de outras bandas de rock da época, como Titãs e Barão Vermelho, o que me fez lembrar de outras de Brasília, que é a terra natal dos Paralamas, como os Raimundos. Tenho um grande amigo que sabia tocar no violão quase todas as músicas desse grupo, que mistura música nordestina com rock, nos tempos de colégio. Eu achava as letras muito vulgares – só ouvia Green Day naquela época – mas de tanto ouvir ele tocando, passei a gostar também. Passei a ver que eles eram diferentes, originais e faziam um rock de qualidade, não eram um grupo qualquer. Com tantos pensamentos brotando na minha mente durante o trajeto até o meu quarto, pensei nas minhas próprias músicas, no livro insano que eu estava escrevendo, no que os meus amigos estariam fazendo naquela hora, no futuro, em dinheiro, na sauna que eu tinha feito no mesmo dia, nas músicas interessantes do novo Cd do Panic At The Disco que lembravam os Beatles que eu tinha escutado pela primeira vez dois dias antes, no livro autobiográfico do Eric Clapton que eu estava prestes a terminar, até voltar aos Raimundos. Dessa vez, minha mente foi fazendo uma retrospectiva dos seus grandes hits: “Tora Tora”, “Eu Quero Ver o Oco”, “Puteiro em João Pessoa”, “Esporrei Na Manivela”, “A Mais Pedida”, “Nega Jurema”, entre outros.
Tirei a roupa, deitei na cama e liguei a TV. Só depois de cantarolar algumas vezes o refrão de “Puteiro em João Pessoa” que eu me dei conta de que estava em João Pessoa e tinha a grande chance de conhecer o lugar que serviu de inspiração para uma das maiores músicas do rock nacional. Apesar de sua importância histórica, não constava em nenhum guia turístico “sério” da cidade.
Precisava lembrar o nome do estabelecimento em questão. Voltei à recepção do hotel:
- Boa noite. Tem internet no hotel?
- Temos um servidor, mas o senhor tem computador com wi-fi?
- Tenho.
Ganhei uma senha (é claro que paguei por isso) e entrei no site Cifra Club para consultar a letra da canção:
“Dudu já tá alucinado, já é meio caminho andado
Pra rolinha comer alpiste
E pro rapaz não ficar triste vamo onde as nêga são ativa
Não há em toda João Pessoa lugar melhor que o Roda Viva”
Fui conversar novamente com o taxista gordo e simpático:
- Eu estava querendo ir no Roda Viva. É aquele puteiro que serviu de inspiração para a música dos Raimundos, você conhece?
- Claro. Levo muito passageiro lá. É o melhor da cidade. Só que agora não se chama mais Roda Viva.
Ele disse que o nome era “Efectus”, algo assim, não me lembro mais. Porém, o hotel ao lado, que serve de “matadouro”, ainda se chama Roda Viva. Ficavam à beira da estrada, no meio do nada, há uns vinte minutos do hotel. Disse ao taxista que não iria demorar muito, só queria mesmo dar um “confere” no lugar e ele ficou me esperando do lado de fora depois de ter se irritado com o segurança, que não o deixou entrar de graça na casa, pois ele havia “esquecido” o documento de taxista. Detalhe: a entrada era cinco reais com direito a um refigerante, uma cerveja ou uma dose de rum. No caminho de volta, ele disse que era o “pica” do ponto de táxi do hotel e que não ia deixar barato. Não entendo o que leva pessoas como ele, que tem algum dinheiro, se irritar por causa de cinco reais.
Escolhi a dose de rum e pedi uma Coca-Cola extra – para misturar com o rum, bela combinação por sinal, recomendo. Uma menina linda, bem vestida e cheirosa se aproximou da minha mesa.
- Você está sozinho?
- Estou sim, pode sentar.
- Eu sou a esposa do garçom, visse? Vou chamar uma menina para você conhecer.
A tal moça era fraca, assim como todas as outras que estavam “disponíveis” na casa.
- Oi, como você se chama?
- Paulo, e você?
O nome dela era Cíntia. Não fedia como a mulher descrita na letra da música – “era uma quenga fedorenta, daquelas da mais nojenta” – mas era sem dúvida nojenta. O papo começou trivial, mas depois ficou interessante:
- Já deu alguma merda aqui? Do tipo, chegar o namorado de alguma menina?
- Já. Tem um cara que bem tirou uma menina daqui pra casar com ela, visse? Ele viaja muito a trabalho, acho que é caminhoneiro. Então teve uma vez que ele disse que voltaria num domingo, mas apareceu aqui no sábado, sem avisar. A menina tava aqui, você acredita?
- Caramba, e aí?
- Ele nem fez escandâlo. A menina disse que só tinha vindo pra matar a saudade do lugar e das colegas.
- E ele acreditou?
- Não sei. Mas de lá pra cá sempre que ele viaja, leva ela junto. Nunca mais vi essa moça aqui não, visse?
- E você? Nunca passou por um problema desses?
- Mais ou menos. Eu moro em Recife. Já fui casada, tenho uma filha pequena. Não queria que o meu ex-marido soubesse, mas ao mesmo tempo queria contar a ele. Falta coragem, visse?
- E se um dia ele aparecer aqui? O que você faria?
- Faria nada. Falaria com ele numa boa e assumiria o meu trabalho. Mas eu sei que ele suspeita porque já veio uns colegas dele aqui que me caguetaram pra ele, visse? Eu nego até a morte, digo que não sou eu, mas como te falei, não aguento mais isso, queria contar logo pra ele.
- Entendi, deve ser chato mesmo.
Enquanto isso, um strip-tease assaz ardente rolava na nossa frente ao som de baladas pop deprê melódicas dos anos 80 que dividia as atenções com a novela das oito que passava numa TV, à minha esquerda, cujo volume era quase tão alto quanto à música.
- Você tem orkut?
- Como?
- Você tem orkut?
- Tenho.
- Me adiciona lá então Paulo. Você só não pode me mandar recado falando daqui, visse?
- Ah sim, pode deixar.
É claro que eu “esqueci” o guardanapo com o e-mail dela no hotel.
CONTINUA SEMANA QUE VEM