O Estrondo

Faço Yôga há mais de um ano, duas vezes por semana, às vezes menos, nunca mais. Tenho a sensação de que a minha evolução neste vago intervalo de tempo se assemelha à evolução do Brasil em se tornar um país incorrupto, não obstante meus aparentes esforços e elogios oriundos da minha paciente professora.

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O número de alunos no meu horário oscila muito. A média, contando comigo, é 4, segundo meus breves cálculos. Existem vários níveis e eu ainda estou, com muito orgulho, no nível zero, também intitulado de Pré-Yôga ou aspirante (ou ainda, “aspira”,como pode ser visto no filme “Tropa de Elite”). Para ser bem sincero, podem me chamar de idiota que eu não ligo, não tenho interesse em subir de nível. Precisaria para isso estudar a filosofia desta arte milenar, além de desenvolver um forte trabalho de mentalização nas aulas. Tenho outras coisas muito mais interessantes para se estudar e prefiro deixar essa parte da mentalização com as conversas diárias que tenho comigo mesmo e com o meu cachorro.

Um dos exercícios que mais gosto funciona da seguinte maneira: com as costas coladas no tatame azul celeste sintético, o praticante jogas as pernas, juntas e esticadas, para frente quase encostando os calcanhares no solo e para trás quase encostando as canelas na cabeça, como se as pernas fossem um grande ponteiro de metrônomo daqueles do tempo em que a sua avó estudava piano com 12 anos de idade, indo de um lado para o outro numa velocidade constante. O movimento do corpo todo, que se assemelha ao da cadeira de balanço da sua avó (agora com 63 anos), massageia toda a coluna, vértebra por vértebra, produzindo nas palavras da professora uma “deliciosa sensação de bem-estar”. Antes de concluir o exercício, o aluno deve ficar com as pernas paradas no alto e depois ir descendo-as com a maior calma do mundo, sentindo cada vértebra se desenhando no tatame. Agora, ele está aprimorando a sua concentração e o seu abdome, que precisa ser muito forte para agüentar o corpo se movendo muito lenta e harmonicamente. Experimente isso na sua casa que você vai ver, pode ser em qualquer piso.

Quando o cóccix toca o solo, o aluno desavisado poderá estar correndo grande perigo. Não estou falando da possibilidade dele ficar paralítico pelo resto da vida ou coisa parecida, é muito pior do que isso, acredite! A região do cóccix pode reproduzir, em alto e bom som, um estrondo idêntico ao de uma ventosidade emitida pela abertura exterior do reto. Eu mesmo já caí nessa armadilha uma vez. Porém, logo que ouvi o barulho, simulei um espalhafatoso espirro de forma que o primeiro ruído fosse ofuscado pelo segundo. Nem todos tiveram a mesma sorte ou sagacidade que eu, e com isso permitiram o vergonhoso estrondo invadir e se propagar pelo silencioso recinto. A melhor maneira de evitar o estrondo é fazer a aula de camiseta. Mas não se esqueça que às vezes na hora de encostar o cóccix no chão, esta região pode estar desprotegida pela camisa ou camiseta, então trate de esticá-la novamente. Se você gosta de altas emoções, pode se exercitar sem camisa. Mas para isso você precisa colocar a mão na região estrondosa antes do contato com o solo. O problema é que você acaba fazendo o exercício sem estar muito relaxado, pensando o tempo todo num provável estrondo, e isso irá comprometer seu desempenho.

Não pense que somente os praticantes de Yôga estão em risco. Este fenômeno também é muito comum em piscinas cujo piso da borda é de pedra. Experimente deitar encostando a região do cóccix na pedra molhada que você vai ver. Ela vai grudar no solo e quando você tentar se descolar, já era. Mas calma! Se você perceber que está colado, você pode calmamente ir colocando as duas mãos na região atingida, uma de cada lado, de modo que mesmo que algum som seja produzido, este será muito mais baixo ou praticamente inaudível. Boa sorte!

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