L´Homme Gelé

O texto abaixo foi escrito em 2003, entre os dias 6 e 10 de abril.

A finalidade daquela curta viagem de metrô até a estação Opéra era sem dúvida curiosa, diria até bizarra, mas fui assim mesmo. Apesar de nunca ter dado muita importância a artefatos do gênero, algo me dizia que estava prestes a fazer um bom negócio comprando um perfume exótico no Museu do Perfume. Uma vez no nível dos carros após ter ficado submerso desde a estação Odéon, me faltariam três quarteirões para chegar ao destino. Quando estava ainda no primeiro quarteirão, não pude deixar de reparar numas letras vermelhas,enormes e gritantes esparramadas num outdoor do outro lado da rua, mas como não conseguia distinguí-las devido aos galhos de árvores que as ofuscavam (só dava pra ler as letras O e R), continuei andando como se aquilo não existisse.Um pouco mais adiante, ao olhar novamente para o outro lado da rua, quase cai pra trás. A união das letras que estavam encobertas formavam agora duas palavras: JAMES TAYLOR.

James Taylor e Paul Simon são indubitavelmente os artistas que mais dei atenção nos últimos doze meses e a maior prova disso está nos únicos DVDs que comprei aqui em Paris: Paul Simon ao vivo em Paris(2000) e James Taylor ao vivo nos EUA(2001). O bilheteiro me disse que o show aconteceria naquele mesmo dia e que os ingressos já tinham se esgotado há milênios. Não pensei duas vezes, tirei 80 Euros no banco e fui para a porta do Olympia às 19:30, uma hora antes do início do show. Os cambistas pediam 200 Dólares, mas sabia que cedo ou tarde eles teriam que mudar de discurso para não sairem no prejuízo.Vencido pela ansiedade, acabei pagando 70 Euros no ingresso de 35 Euros mesmo sabendo que talvez pudesse pechinchar ainda mais.

Como o DVD que possuo faz parte da mesma turnê, pensava que iria ver os mesmos músicos e músicas, e aquilo me deixava chateado a ponto de pensar que tinha me precipitado em pagar tão caro por algo que já conhecia. Mas ao olhar bem para o palco antes do início do show, notei que faltava a percussão de Luis Conte que havia gravado o último CD (October Road) e que também toca no DVD. E aquilo significava muita coisa. Logo pensei,”JT pode ter contratado outros músicos,mudado de repertório e arranjos…”.  

O pior é que estava certo! James Taylor sobe ao palco às 20:50 trazendo seis músicos ao invés de 12, abre o show com uma música inexistente no DVD e suas primeiras palavras espantam meu arrependimento dos 70 Euros: “The Secret of Life is enjoying the passage of time”!

Um pouco antes do show, um homem aparentando uns ciquenta anos havia me perguntado como era possível um garoto tão jovem como eu conhecer James Taylor. Disse a verdade, ‘foi graças ao meu pai…’.

 

“Einstein said that he could never understand at all

Planets spinning through space

The smile upon your face

Welcome to the human race

Isn’t that a lovely ride?”

 

Outros versos dóceis eram emitidos enquanto muitas pessoas recém-chegadas procuravam seus respectivos lugares com a ajuda de um lanterninha e além de pertubarem os outros, certamente desconheciam que “Secret Of Life” correspondia ao álbum “JT” de 1977 e que 3 backing vocals, dois músicos de sopro e um percussionista não faziam mais parte da banda daquele careca de 55 anos. Também não sabiam que o novo baterista da banda era o mesmo que havia gravado “October Road” e que tocava frequentemente com Paul Simon há mais de vinte anos, mas no entanto, qual seria a utilidade dessas informações para eles?

Steve Gadd começa mostrando sua sutileza e elegância no meio da segunda canção(“Copperline”) e acaba roubando a cena juntamente com o lindo backing vocal de Arnold McCuller em “October Road”, logo em seguida onde James também se utiliza de bonitos versos:

 

“Oh promised land and me still standind

It’s a test of time it’s a real good sign

Let the sun run down behind the hill

I know how to stand there still

Till the moon rise up behind the pine O’Lord

October Road”

 

É bom lembrar no entanto que ele fala dessa mesma terra prometida, desse mesmo sol se pondo e da mesma lua nascendo em centenas de outras canções. Aliás, muitas delas foram tocadas no show: “Carolina in my mind”, “Country Road”,”You can close your eyes”,”Jump up behind me” e “Sweet  Baby James”.

A única canção que dava pra ouvir nitidamente a voz do público era justamente a manjada “You’ve got a friend”. Coincidência ou não, a canção mais manjada de Paul Simon (Bridge Over troubled Water) também aborda o mesmo assunto.

Para a minha surpresa, James falava um francês muito bom.Dizia uma frase em inglês e depois repetia-a em francês num ciclo interminável.Em alguns momentos ele não conseguia se auto-traduzir e era bem engraçado.

A melhor música do show foi “The Frozen Man” ou segundo Taylor “L’homme

gelé” que conta a história de um homem que ficou congelado durante cem

anos mas depois que foi encontrado e retirado do gelo,voltou a viver.Segundo Taylor,esta história é verdadeira.Será?Vai ver este tal homem de gelo é ele mesmo…

Muito antes de encerrar o show com Sweet Baby James, cantar “You can close your eyes” ao lado de Sting(The Police) e ainda tocar gaita, James dedica “Shower the people” à guerra e relembra ter escrito “Line’em up”(que se refere à hipocrisia dos presidentes americanos e a naturalidade pela qual eles trocam de nomes sem trocar de ideologia) durante à primeira guerra do golfo, e chegou a dizer algo muito forte contra seu próprio país:”Je crois que après ça on va brûler un drapeau”. Acho que não só eu como todos ali presentes, interpretaram aquilo como queimar a própria bandeira americana.

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