Sem brigas

  

         Era uma festa incomum, no bairro das laranjeiras. Num quarto era exibido um filme surrealista, num banheiro minúsculo o convidado se deparava com uma exposição de fotos  e a escada da entrada da casa era decorada por cordas vermelhas amarradas no corrimão que dificultavam bastante a passagem dos convidados, de modo que no fim da festa, aquela linda obra de arte estava completamente desgrenhada.

         As realizadoras da festa tiveram a grande idéia de contratar duas pessoas humildes (nada de homens de terno e gravata fazendo caipirinhas e oferecendo whisky) para vender cervejas em lata e salgadinhos como se estivessem nos arredores do Maracanã. Terceirizaram talvez a pior parte de uma festa feita em casa. Era uma mulher e um rapaz mais jovem. Perguntei a ele se  tinha cerveja Itaipava. Cavucou o isopor e encontrou. Agradeci e ele disse “sem brigas”.

         Sem brigas? Sorvia minha lata pensativo, muito pensativo. Será que eu tinha gritado com alguém ou empurrado algum amigo sem ter me dado conta? Não demorou no entanto para eu esquecer rapidamente o que aquele simpático rapaz havia me dito.

A banda Escambo, formada pelos meus amigos de infância Thiago Thiago de Mello, Renato Frazão e Lucas Dain, iria se apresentar em breve e eu iria fazer uma participação especial tocando “Pedrão” e “Não Sei quem Foi Descartes”, voz e violão. Acompanhei o processo de montagem de palco enquanto as pessoas iam chegando aos poucos. Estava na hora da segunda cerveja da noite. “Sem brigas”, ele disse. Fiquei ali parado mais pensativo que antes. Fingi que lia o rótulo de um vinho ordinário. “Você quer esse vinho? É muito bom.” “Acho que vou ficar na cerveja mesmo…”

Não era possível que ele não percebia que ao dizer aquilo o tempo todo ele estava na verdade incitando a violência e não o contrário. Sua atitude era semelhante a de alguns artistas independentes que não podem ouvir um simples “gostei das tuas músicas” que já pedem pra você entrar na comunidade do orkut, se inscrever no mailing, no fotolog, querem que você baixe o disco inteiro no trama virtual, que você participe da gravação do novo clipe deles, que você ajude a nomear o novo disco, enfim, o Bad Religion, meu grupo preferido, tem uma canção cujo título define muito bem o que seria de fato a estratégia utilizada por estes artistas pentelhos: “Recipe For Hate”, traduzindo, “Receita para o ódio”.

         Pedi mais uma cerveja e vi que a receita do meu simpático vendedor estava surtindo efeito quando disse pela terceira vez “sem brigas”. Será que ele dizia aquilo para todo mundo ou era só pra mim? Fiquei ali por perto fingindo que falava no celular esperando a chegada de novos clientes. E para a minha revolta, o primeiro freguês não teve o mesmo tratamento que eu. Fiquei mais confuso ainda quando ele disse “sem brigas” para umas quatro pessoas das nove que chegaram em seguida. E então, meu amigo leitor, que motivo leva o vendedor dizer “sem brigas”?

         Se você quiser saber a resposta, me escreva – paulo_pilha@yahoo.com.br

Crédito da foto: http://www.avecreeew.blogspot.com/

 

 

 

 

 

 

 

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2 Respostas to “Sem brigas”

  1. Bel Levy Says:

    é nóis!!

    ave creeew no seu condado; ave creeew no seu condado!!!

  2. Camila Says:

    então, ele estava fazendo uma piadinha besta bem comum nas classes C e D.
    quando ele te deu a cerveja, provavelmente você disse “brigado” e ele quis ser engraçadinho ao dizer “sem brigas”. realmente, não faz o menor sentido, mas já ouvir bastante de algumas empregadas que já passaram pela minha casa e do meu jardineiro.
    😀

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