Meu encontro com o Ritchie

           

 

 

             Uma pessoa do meu convívio teve a brilhante idéia de me apresentar a um grande ícone do rock brasileiro da década de oitenta, no momento em que retornava, distraidamente, envolto de preocupações descartáveis, do primoroso toalete da livraria Argumento, que fica no Café Severino – uma espécie de apêndice da livraria.

         – Opa! Tudo bom? – teria dito eu.

         – Você o conhece? – disse o apresentador.

         – Mas é lógico. Já toquei muito no violão “Menina Veneno” e ainda toco até hoje. Esta música é sensacional!

         Ritchie estava acompanhado da mulher, com quem é casado há muitos anos. Esboçava uma simpatia invejável, digna de um homem que não sente inveja de outros homens.

         – Que legal! Você toca ela em que tom?

         Apesar de ter estranhado a pergunta, fui rápido no gatilho, o que gerou um olhar de aprovação por parte do apresentador.

         – Toco em dó.

         – Eu também! – disse o cantor, bastante animado.

         – É mesmo? – eu disse – Tenho a impressão de que esta música foi gravada em ré ou em mi, não sei.

         – Gravei em ré, mas sempre toquei em dó. Aliás, não sei como eu consegui gravar em ré essa música, pelo visto eu tinha mais voz naquela época. Eu te perguntei isso porque todos os sites de cifras na internet têm versões dessa música em fá, não sei de onde eles tiraram isso. Fica muito agudo.

         – Muito estranho mesmo, normalmente eles tiram as músicas no mesmo tom do original – eu disse.

         – Pois é! Não faz sentido!

         A conversa perdeu força por alguns minutos devido a pessoas que chegavam a todo instante para cumprimentar e trocar algumas palavras com Ritche, sua mulher e o apresentador. Ganhou força novamente quando introduzi o seguinte assunto:

         – Acabei de ler o livro do Midani. Ele conta que mostrou as suas músicas para pessoas próximas e todos acharam que era loucura lançar um disco seu, mas ele resolveu lançar assim mesmo e deu no que deu, sucesso absoluto!

         – Isso é mentira – disse a mulher dele, que até então pouco havia participado da conversa.

         – O meu disco foi lançado pela gravadora concorrente – disse o cantor sorrindo.

         Pouco depois, nos despedimos. “Então você toca também? Legal! É muito fácil lembrar esse nome, Paulo Pilha, depois vou entrar no seu myspace…”

         Estava certo de que tinha descoberto, sem querer, um grande furo jornalístico, mas na verdade, depois de consultar o livro do André Midani (um dos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira e mundial) novamente, estava diante de um sério problema de memória deste que vos escreve. A banda que ele lançou contra a vontade dos amigos era o Ultraje a Rigor, liderado pelo Roger – confundi Ritchie com Roger, mas até que os nomes são parecidos, começam com a mesma letra.

         Fiquei chateado com esse episódio, pois a minha gafe fez com que o Ritchie e sua mulher pensassem que o André Midani é um mentiroso. Espero encontrá-los o mais breve possível para desfazer este mal entendido.

 

Obs.: Semana passada eu fiquei bastante doente e acabei não atualizando o blog, lamento por este infortúnio.

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Uma resposta to “Meu encontro com o Ritchie”

  1. Carlos Andreazza Says:

    Você causou uma fabulosa crise na música brasileira – e já vejo a hora em que, encontrando-se Ritchie e Midani, o primeiro agredirá fisicamente o segundo, chamando-lhe, ademais, de canalha mentiroso, o que Midani, sangrando à morte, não terá tempo de compreender… Você, Paulo Pilha, será responsável por uma desgraça.

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