Como eu me fodi no Claro Cine

Trata-se do maior evento de cinema a céu aberto do país com um telão de 282 metros, o equivalente a um prédio de quatro andares. Se não bastasse isso, ainda é montado todos anos, entre novembro e dezembro, no charmoso Jockey Club da Gávea com direito a shows de bandas como Moptop e Casuarina no fim da última sessão e competentes serviços de gastronomia, com destaque para o Koni Store, o melhor restaurante ou fast-food do planeta. Eles fazem um temaki muito superior ao da concorrência. Outras lojas genéricas de cone como as da PUC, a do Baixo Gávea, ou aquela colada à Pizzaria Guanabara, não chegam aos pés da Koni Store. Os cones de restaurantes japoneses convencionais que servem rodízio e tudo mais são ainda piores. Longa vida ao Koni Store!

Diante da magnitude daquele evento, já na sua segunda ou terceira edição no Rio, achei que eu devia ir pelo menos uma vez, só para conhecer. O dia escolhido foi um sábado, 7 de dezembro, penúltimo dia do evento. A primeira sessão era Kung Fu Panda e a segunda eu não lembro mais.

Fui ao Jockey na parte da tarde apenas com o intuito de comprar o ingresso. Larguei o carro no pisca alerta e vi um adesivo com a palavra “esgotado” colado sobre o dia 7 de dezembro num enorme calendário colado numa parede. Fiquei frustrado. Comentei com um segurança à paisana a notícia e ele deu de ombros. Fiquei andando em círculos até me deparar com uma moça que usava uma camisa do Claro Cine.

– Então quer dizer que hoje já tá tudo esgotado?

– Não. Kung Fu Panda ainda tem. Só não tem a última sessão.

Olhei novamente para o calendário, para o adesivo, para a moça, para o segurança à paisana, para o dia 7 de dezembro, para o nome Kung Fu Panda e novamente para o adesivo.

– Não estou entendendo. Não está escrito esgotado na placa?

– Sim, mas o esgotado está colado ao lado da segunda sessão, se as duas sessões estivessem esgotadas o adesivo estaria atravessado, como aquele ali, do dia 22 de novembro.

– Agora eu entendi, mas saiba que eu quase fui embora. Tinha certeza que estava esgotado.

– Então por que você perguntou a mim?

– Não sei. Estava frustrado e quis dividir com alguém a minha frustração, só isso.

Fui então para a fila. Só tinha um caixa e cada pessoa levava uns três minutos pra comprar de modo que esperei uns quinze minutos, mesmo com apenas cinco pessoas na minha frente. Quando enfim chegou a minha vez, olhei para trás e vi um fila gigantesca e olhei pra dentro da cabine e vi um monte de funcionários coçando o saco.

– Oi, tudo bem? Acho que vocês deviam abrir mais caixas. A fila aqui fora tá muito grande.

Uma mulher com cara de gerente saiu da cabine, olhou a fila, e imediatamente abriu dois novos caixas.

Fui pra casa, criei um novo documento do Word chamado “Como eu me fodi no Claro Cine”, inspirado no artigo de Adolar Gangorra, “Como eu me fodi no show dos Los Hermanos”, sem saber que o Claro Cine ainda iria pregar mais peças comigo naquele dia. Tomei um banho, dormi um pouco e voltei ao Jockey.

Dizia no “quadro-calendário” da parede que antes do filme o espectador poderia conferir umas maquetes e ainda tinha um vale pipoca. Como cheguei faltando uns vinte minutos para começar a sessão, fui direto ver as tais maquetes. Tinha imaginado uma maquete do Rio de Janeiro futurista ou uma maquete de Nova York, não sei porque pensei em Nova York, só sei que não era nada disso. Um bando de crianças de sete anos, meus futuros vizinhos no filme a seguir, faziam umas coisas esdrúxulas com massinha, papel, isopor, pequenos objetos em geral, enfim, que lixo. Só para ter certeza, perguntei ao instrutor da criançada que me confirmou mais uma desilusão.

Mas tava tudo certo – agora eu iria pegar a minha pipoca e comprar um refrigerante. Só que a pipoca que eles davam de graça era muito menor que a de 1 real do pipoqueiro da esquina e não era possível comprá-la, ou seja, eu teria que me contentar com aquela coisinha ridícula, logo eu, que sempre trabalho com uma pipoca mega! Peguei a minha pipoquinha, coloquei no bolso e fui em busca do meu refrigerante de 1 litro ou 700 ml. O maior refrigerante que eu encontrei no entanto foi uma lata no Koni Store de 350 ml. Resultado: antes de subir o telão eu já tinha acabado com a pipoquinha e com a Coca-Cola. Não sei ver filme no cinema com as mãos abanando, sou uma pessoa muito inquieta. Quando então me preparava para ir novamente ao Koni Store comprar uma ou duas cocas e uns dois cones para comer durante o filme, ouço uma voz no alto-falante alertando a todos que a partir daquele momento os lugares reservados não valiam mais, ou seja, você chega cedo, paga por um lugar melhor, mas pode perdê-lo pouco antes do início do filme. Como estava sozinho, corria riscos, então acabei ficando, ainda mais porque várias mamães com seus filhinhos estavam situadas em lugares estratégicos, como se fossem gaviões, planejando dar o golpe do lugar marcado. Sim, eu poderia ter pedido para alguém guardar o meu lugar, mas estava muito irritado para isso.

O filme atrasou cerca de 45 minutos, isso mesmo, 45 minutos. Como pode? O telão pelo menos era realmente incrível e o filme era muito bom, um dos melhores desenhos dos últimos tempos – Kung Fu Panda.

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Uma resposta to “Como eu me fodi no Claro Cine”

  1. Claudio Lyra Says:

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

    Muito Bom.
    É como dizem por ai – aqui no Rio não se presta serviço, se faz favor. E olhe lá…

    Continue com os posts.
    Um Sol Maior.

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