O que fazer para ser respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis

Super Mario Bros, Caverna do Dragão, carrinho de controle remoto, Banco Imobiliário, arremesso de papel higiênico pela janela, campeonato de arroto. Para um garoto de 12 anos, qualquer coisa – até mesmo fazer o dever de matemática – era mais interessante do que ficar segurando um calhamaço de papel cheio de letrinhas miúdas. E comigo não foi diferente. A essa altura você já deve estar se perguntando como pode um dever de matemática ser mais interessante do que ler. Pois veja que ao acabar o dever de matemática, eu estaria liberado para brincar, mas ao acabar a leitura, eu estaria liberado para fazer o dever de matemática.

Com o passar dos anos, o meu gosto pela leitura foi decaindo (se é que é possível decair algo que já está totalmente caído) à medida que os professores de português e literatura insistiam em nos enfiar goela abaixo escritores ainda mais chatos e complicados do que aqueles que nos foram apresentados sem sucesso na quinta série. Nunca me esquecerei de “Iracema”, livro de José de Alencar. Cada frase era um sofrimento, cada parágrafo uma tortura, cada página uma eternidade e cada capítulo eu não sei dizer, pois nunca cheguei ao fim do primeiro.

Vim de uma infância pré-reuripotteriana. A falta de um livro febril entre os garotos da minha idade pode ter contribuído para o meu gosto tardio pela leitura, que só veio mesmo quando eu já estava no fim da faculdade de administração. Cheguei a ter um namoro intenso e doentio com a leitura, mas foi só um namorico de verão. Mal durou três meses.

Tudo por causa de uma ideia que me veio à cabeça numa manhã de domingo: cientistas renomados são contratados pelo Vaticano para executar um serviço complexo e revolucionário capaz de mudar o mundo. Eu adoraria contar mais detalhes do enredo, mas não posso correr esse risco. Vai que um dia, quando eu estiver batendo botas, com a visão turva e a fala embargada, eu volte a achar a história genial e tenha vontade de enfim publicá-la? A ideia pode até ser medíocre, mas é minha e eu não dou pra ninguém.

Não sabia nem por onde começar, precisava de ajuda. Tomei coragem e liguei para um amigo da minha mãe que tinha mais de cinco romances nas costas. Ele me recebeu em sua casa num sábado chuvoso, às quatro horas da tarde. Fomos até à cozinha e ele me serviu um copo de suco de caju. Não fiquei irritado com as formigas que corriam feito loucas dentro do açucareiro, acontece nas melhores famílias, eu só me irritei quando ele disse que as formigas faziam bem aos olhos, que era pra eu não me preocupar se por ventura ingerisse uma ou outra. Como se aquela piada idiota já não tivesse sido feita por todas as avós do mundo.

Contei a ele as minúcias da história de ficcção científica e perguntei o que eu precisava fazer para escrever um bom romance, que fosse respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis. Ele foi firme e direto.

– Você precisa de três coisas, meu filho. Primeira coisa, escrever todo santo dia. Mas não basta escrever um poema, uma letra de música ou uma crônica, você precisa trabalhar todos os dias na porcaria do romance. Que seja uma única linha, mas tem que ser todo dia. Segunda coisa, ter sempre a mão um caderninho e uma caneta para fazer anotações. Não importa o lugar que você esteja, tem que ter o caderninho e a caneta enfiados no bolso traseiro da calça. Terceira coisa, você precisa ler muito, o tempo todo, sem parar.

– Mas você gostou da minha história?

– Pouco importa a história, garoto. A história é o de menos. O segredo está na maneira pela qual ela é narrada.

– Não vou ficar chateado se você dizer que não gostou.

– Com mil demônios, garoto, pare de chorar. O que eu estou querendo dizer é que uma ideia não é nada, porra nenhuma, zilch. A principal diferença entre uma pessoa de sucesso e uma pessoa medíocre é que a pessoa de sucesso coloca a ideia em prática. Tá cheio de cretino por aí com ótimas ideias.

Ele disse que ia ao banheiro e voltou com mais de dez livros. Jack London, Oscar Wilde, Juan Rulfo, Kafka, Poe, José Saramago, Tchekhov, entre outros.

– Acho que isso aqui está bom para você começar – ele disse.

– Muito obrigado pela sua ajuda. Gostaria de fazer uma última pergunta antes de ir. Ontem eu li cerca de dez páginas do seu último livro e fiquei impressionado. De onde você tira tanta inspiração?

Ele me olhou com desprezo. Fiquei assustado. Nunca o tinha visto daquele jeito

– Meu jovem, entenda de uma vez por todas. Inspiração é a puta que pariu. Ler é suor, é ralação.

– Eu acho que já li isso num livro. Dizia que escrever é 99% transpiração e 1% inspiração.

– Pois saiba que o autor deste livro é um idiota. Escrever é 100% transpiração!

O que deveria ser um estímulo para o meu ambicioso projeto, acabou sendo um balde de água fria. Mas ainda assim, conforme eu mencionei no início desse texto, passei quase três meses lendo e escrevendo de forma frenética. Mas foi justamente a leitura, ou seja, a descoberta dos clássicos da literatura que me fez perceber que eu nunca escreveria como aqueles caras, e para piorar, me dei conta de que a minha história aparentemente sensacional, para não dizer genial, era uma merda. Abandonei a escrita, abandonei a leitura, coloquei um meião e fui jogar futebol. Cheguei em casa exausto, tomei banho e liguei a TV. Foda-se a leitura, eu pensei. Isso é coisa de velho. Meus amigos não liam, ninguém lia. Não tenho culpa se eu nasci na geração errada.

Quase dez anos depois, sou tomado por uma nova ideia, quase tão ruim quanto à primeira, mas não desisto.

Quer dizer, pelo menos por enquanto.

Obs.: Este texto transita constantemente entre os campos da ficção e o da não-ficção.

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6 Respostas to “O que fazer para ser respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis”

  1. Ana Góes Says:

    Muito bom! Mesmo!

  2. bianca Says:

    é bem assim.
    achei divertido seu ralato.. e olha, a vida também transita constantemente entre os campos da ficçao e o da não-ficçao 😉 nao sao só os textos…

  3. Sylvia Araujo Says:

    É. Pois é.

    Hora de ralar. rs

  4. Jane dias Says:

    fala serio nao tinha algo mais comprido pra se ler nao? Dizem q/as boas piadas sao as mais curtas isso vale tambem para essas paginas q/ tentam levantar o cidadao .

  5. brenda Says:

    nao gostei… nem consegui ler ate o final

  6. Luciana Says:

    Hahaha. Este foi o primeiro texto seu que li. Gostei bastante. Por sinal, achei impressionante como não conseguiram chegar no final, mas…se você mesmo [seja ficcional ou não], não conseguia ler nada, é uma prova de que ninguém é obrigado a gostar também. Uma pena.

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