A arte de perder as coisas

Tatiei os bolsos da calça. Moedas, carteira e passaporte. Tatiei de novo. Moedas, carteira e passaporte. Faltava algo muito importante, mas eu precisava ter certeza. Enfiei a mão nos bolsos e retirei os mesmos utensílios que eu havia tateado antes. Senti a barriga congelar. Olhei novamente para as minhas mãos e já não tinha mais dúvidas, era a visão do inferno.

Depois da jaqueta, do MP3 player e da chave do cadeado da mala, perder a câmera digital Sony Cyber-shot 14 pixels que eu havia comprado três dias antes em Los Angeles era inaceitável. Era vergonhoso. Aquilo não podia estar acontecendo comigo.

Entre a jaqueta bege, o MP3 player e a chave do cadeado, a perda menos significante foi a chave do cadeado. Assim que eu cheguei ao albergue que eu estava hospedado em Las Vegas com mais dois amigos, perguntei na recepção se eles tinham alguma ferramenta capaz de arrebentar o cadeado da minha mala. Poderia perfeitamente ter deixado a mala sem proteção, mas como haviam outros hóspedes no nosso quarto, achei que era melhor não arriscar. O homem da recepção me emprestou um alicate gigante, da mesma altura de uma criança de quatro anos. Quebrei o cadeado sem qualquer esforço e comprei um novo, ali mesmo na recepção, por quatro dólares.

Sabia perfeitamente onde eu tinha perdido a câmera. Só não sabia se ela ainda estaria no mesmo lugar. Levando em consideração o intenso movimento da loja e a distância que eu teria que retroceder, as minhas chances eram bem pequenas.

Antes de chegar em Las Vegas, a gente dormiu duas noites num outro albergue, localizado em Santa Monica, Los Angeles. Depois de tomar alguns Jack and Coke (Jack Daniels + Coca-Cola) no ótimo bar Hooters, fechamos uma das noites jogando sinuca na sala comunal do albergue. Dei duas ou três belas tacadas, mas todas as outras foram sofríveis. Foi só na manhã do dia seguinte que eu percebi que tinha deixado o casaco em uma das cadeiras que rodeavam a mesa de sinuca. Cheguei esbaforido no local e o casaco não estava mais lá. Fui até à recepção e conversei com duas pessoas diferentes. O único casaco que eles tinham no “lost and found” eu não aceitaria nem de graça. Era pequeno,encardido e cafona.

Enquanto corria feito um louco pelo Ceasars Palace, eu pensava nas 133 fotos que eu havia tirado até então. A grande maioria era dispensável, mas eu já tinha conseguido juntar uma dezena de pérolas e três ou quatro diamantes.

Por mais que a jaqueta tenha sido mais cara que o MP3 player, aquele pequeno aparelho preto da Samsung modelo YP-P3 era a maior perda da viagem até o momento. Nunca vou esquecer das duas vezes que ele entrou em coma. Na primeira vez, ficou apagado por uma hora e na segunda, ficou totalmente inoperante por quatro dias. Eu já tinha até consultado uma loja, mas não fiquei satisfeito com os modelos pesados e robustos que me foram apresentados. Não simpatizo nenhum pouco com iPod, pelo menos até o momento. Durante esses quatros dias de coma, eu tentei diversas vezes fazer o aparelho ressuscitar. Após o banho, depois do jantar, na hora de levantar. Até que numa dessas tentativas, ele resolveu ligar novamente. Fiquei muito feliz. Foi um troço muito bacana mesmo. E o pior é que a culpa era minha. Tinha baixado um álbum do Morrissey na internet que estava corrompido e foi justamente na tentativa de ler essas canções que ele entrou em coma duas vezes. Mas assim que ele ligou depois de quatro dias morto, eu tratei de apagar o álbum inteiro, até mesmo as canções que tocavam, só para garantir que não teria mais qualquer tipo de problema.

Foi naquele pequeno aparelho que eu escutei a primeira mixagem do meu disco. Foi com ele que eu gravei algumas melodias que mais tarde se transformariam em canções que estão no meu primeiro disco. Foi com ele que eu gravei novas melodias que nunca mais poderão ser recuperadas. Além de tocador de MP3 e pen drive, ele também era um gravador, um animal de estimação, um filho, uma vida.

Entrei na Apple Store sem esperanças. O computador que eu havia usado para checar o meu e-mail era o mais visível de todos, o mais perto da entrada. Olhei para o Mac em questão e fiquei atônito. Não sei se eu merecia aquilo. Pensando melhor, eu certamente não merecia. Ainda mais depois das três perdas em apenas quatro dias de viagem.

Peguei a câmera, revi algumas fotos, a coloquei no bolso e surgiu uma nova preocupação. Mal deu tempo de curtir aquele momento de êxtase. Estava sem celular (deixei no Rio) e os meus amigos não sabiam que eu tinha ido procurar a câmera. Esqueci de dizer a eles. Precisava encontrá-los logo ou então só os veria no dia seguinte de manhã dormindo no quarto. Então eu saí correndo pelo Ceasars Palace, novamente feito um louco.

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3 Respostas to “A arte de perder as coisas”

  1. Cyntia Says:

    Muito legal seu texto! Sou esquecida q nem vc, mas acho q nunca perdi coisas muito importantes assim, até pq nunca tive nada tão indispensável como um casaco caro ou um mp3 com a minha vida. Evito sair com minha câmera justamente pra não perdê-la, o q é uma idiotice pq perco bons momentos pra tirar fotos. Mas realmente é uma angústia mt grande qdo a gente se dá conta de q perdeu alguma coisa.

    O q achei intrigante no texto é q ele mostra como vc, eu e a maioria das pessoas são com bens materiais, especialmente os eletrônicos. Um mp3 ou uma câmera digital são muito mais do q são materialmente. A gente guarda um certo afeto pela coisa, pq aquilo se torna quase essencial na nossa vida… E o mais engraçado é q vc finaliza com a falta do celular! rs

  2. Tom Says:

    Pois é Mr. Battery, lá é assim mesmo. Uma vez uma amiga deixou o carro estacionado na rua dela em Miami com o vidro de trás, sem notar, abaixado. No banco de trás ficou uma bolsa de material de ginástica. Viajou por uma semana. Quando voltou estava tudo lá. Priceless…

  3. Tatiana Says:

    Cara, seu texto é muito bom. Eu ri quando você escreveu da chave do cadeado, já perdi. Já perdi também a câmera e reavi também. O mesmo já aconteceu com celular. Mas o que eu mais perco e depois encontro são livros, já perdi trocentos, inclusive de amigos. Depois, numa mistura de desespero e apego aos Santos, encontrei-os nos lugares mais improváveis. O pior foi um que eu emprestei da biblioteca e escorregou pra dentro do sofá. Eu achei!
    Escrevi horrores, mas seu texto me empolgou. A propósito, sou dos 30 também e sempre achei sua descrição legal, mas nunca tinha vindo parar aqui.
    =)

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