Uma odisseia no laboratório

Fiquei doze horas em jejum para fazer um exame completo de sangue. E não era só isso. Tinha também o tal do exame de urina. O meu plano era Bradesco, e o outro, chegar ao laboratório Sérgio Franco às 9h30. Acordei antes das seis, com muita vontade de urinar, e matei a vontade – ou pelo menos uma parte dela – no potinho amostral de urina comprado na noite anterior.

Logo que eu cheguei ao laboratório, vi uma daquelas cenas lamentáveis, porém muito comuns em laboratórios de diagnóstico: cliente exasperado humilhando funcionário. No caso em questão, era um homem bem vestido, na casa dos sessenta e oito anos, óculos escuros pendurados na altura do peito segurados por uma cordinha, e um olhar blasé, típico dos aposentados que tiveram um cargo importante numa grande empresa e hoje passam a tarde vendo TV e importunando a empregada.

– Infelizmente deu erro em um dos exames e o senhor terá que tirar sangue novamente.

– Você só pode estar de brincadeira.

– Me desculpe, senhor.

– Chama logo a porcaria do seu superior. Isso aqui é um laboratório sério ou é um açougue? Você sabe quanto custa um exame desses, minha filha?

– O senhor tem plano, senhor.

– Escuta aqui, minha filha. Não me chame mais de senhor, está bem? Cadê o seu supervisor? Olha aqui, eu não vou refazer exame nenhum. Vocês vão ter que consertar essa merda.

Felizmente não ouvi o restante da “conversa”. Entreguei o potinho de urina e o pedido médico, preenchi um questionário enfadonho e, alguns minutos depois, fui chamado para o exame. Uma moça muito simpática e falante me recebeu acompanhada de um rapaz tímido e jovem, que lembrava um pouco aquele adolescente do seriado Anita, que era tarado por ela.

– Eu vi que você trouxe também um exame de urina. Que horas você urinou? – ela disse.

– Umas cinco e pouco da manhã.

– Colocou na geladeira?

– Não.

– Então você vai ter que refazer o exame de urina. Me desculpe.

Me lembrei do velho dos óculos pendurados.

– Não sabia que a urina tinha que ir pra geladeira.

– A urina só pode ficar fora da geladeira por duas horas.

– Tudo bem, não tem problema. Eu faço de novo.

– Você já desmaiou alguma vez?

– Já fiz muitos exames de sangue, mas só desmaiei uma vez. Eu estava muito febril e fraco nesse dia. Então, diria que as chances de acontecer de novo são remotas.

– Bom, de qualquer jeito, tem café, chocolate e salgadinhos, logo aqui, no fim do corredor.

– Maravilha.

– Qual braço você prefere?

– Sei lá, tanto faz – eu disse. – Mas pode ser o esquerdo.

Foi aí que o rapazinho se aproximou de mim timidamente e apertou o braço escolhido com uma borracha para pular a veia. Ele estava nitidamente nervoso e até o momento não tinha dito uma palavra sequer. Isso não era bom. Mas eu pensei “trata-se de um exame simples, muito simples, vai dar tudo certo”.

Vi o primeiro jorro de sangue adentrar o frasco de plástico da seringa. Não vi o segundo jorro, nem o terceiro, nem o quarto.

A moça falante, experiente e simpática se aproximou, deu um chega pra lá no moleque e assumiu a parada.

– Perdemos a conexão com a veia. Mas tá tranquilo. Não se preocupe. Vamos fazer no outro braço. Essas coisas acontecem.

Puta que pariu, eu pensei. Estagiário filho da puta.

Se não me engano eram quatro frascos de sangue no total. A moça tirava o meu sangue com a destreza de um cirurgião gelado da Suíça, mas lá pelo terceiro frasco eu comecei a ver umas imagens turvas que se multiplicavam como Gremlins nas cataratas do Iguaçu. Fiquei calado esperando o momento certo. Eu só ia dizer alguma coisa quando a agulha fosse retirada. Se eu dissesse que estava passando mal, ela poderia interromper a retirada de sangue e eu ia ter que fazer tudo de novo, que nem o velho dos óculos pendurados.

– Acho que eu vou desmaiar.

– Vagner, pega um café e um salgado pra ele. Rápido.

– Respira fundo. Fica tranquilo. Se você desmaiar não tem problema. Eu tô aqui pra te ajudar.

– Qual salgado eu trago?

Eu adoraria não ter que escrever a fala acima, mas infelizmente ela condiz com a verdade.

– Anda rápido! Qualquer coisa!

Suava frio feito um porco. Lutava bravamente para não desmaiar. A moça segurava a minha cabeça e continuava a dizer palavras de conforto. Segundo ela, eu desmaiei por cerca de dois segundos. Me lembro de ter “acordado” com um copo plástico de café pressionando o meu lábio inferior. Depois chegou até a minha boca um salgadinho bem vagabundo, daqueles que você encontra na Aviação Cometa, classe econômica, sem ar condicionado. Percebi então que já era possível mexer as mãos e segurei o copo de café. O estagiário estava encostado na porta, mais nervoso e tímido que antes enquanto a moça estava radiante com a minha recuperação. Me colocaram numa cadeira de rodas (me senti o Cazuza em Boston), me deram mais café e salgadinhos no meio do caminho e me puseram, por fim, numa espécie de espreguiçadeira. Foi um susto muito grande, mas valeu muito a pena. A sensação pós-semi-desmaio é indescritível. Se bobear eu tive um mini-nirvana budista e nem sei.

Anúncios

Tags:

5 Respostas to “Uma odisseia no laboratório”

  1. fenda Says:

    Fantástico!

  2. tatiana Says:

    engraçado, eu já presenciei o inverso. funcionário tratando mal paciente, paciente grávida e idoso ainda, uma beleza.
    eu já tive um desmaio completo porque perdi mais da metade do sangue do corpo. foi indescritível, acordei berrando que não queria morrer, um fiasco.
    beijo

  3. Renata Cavallieri Says:

    hehe muito bom! Olha, trabalho numa clínica radiológica ( na verdade é d aminha mãe mas tenho me aventurado na recepção daqui) e o que MAIS tem é velho aposentado que teve cargo importante e que hoje em dia o hobby é maltratar funcionários… É bem bizarro mesmo, é cada grosseria que a gte escuta aqui que a gte desacredita!
    e eu ja desmaiei vaaaarias vezes tirando sangue… hahah mas nunca me sinto bem depois de um desmaio nao.. me sinto meio desorientada… sei la..

    o melhor foi “que salgado?” hahahah

  4. Juliana Alves Says:

    Cliente é um ser de raça inferior. Isto ocorre em todos os lugares, desde que haja a relação compra-venda, seja de serviços ou produtos em geral. Agora vou te contar, quando a maioria dos cliente é rica, peça demissão antes que você saia distribuindo seu salário pra alguém ficar no seu lugar enquanto você vira cliente de alguma clínica.

  5. Valéria Says:

    Adorei…Sou supervisora de uma unidade do Lsf. Admiro demais a
    seriedade da empresa, convivo diariamente com esse universo
    de dores e lamentações e é claro – RECLAMAÇÕES – mas como em qualquer outra situação, ha também, graças a Deus, o outro lado, existe clientes fantáticos – assim como você! recebo todos os dias abraços calorosos, sorriso verdadeiros e muitas vezes presentes inacreditáveis ( semana passada ganhei 3 dzs de manga!! quase fui vender na feira!) Recebo todos os dias o carinho e tbm a insatifação,quase sempre velada, da equipe, essa è a parte mais difícil de adminitrar, saber a diferença entre vontade e necessidade é uma arte. Mas estou aprendendo sempre!

    Parabéns pelo texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: