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Ler ou não ler, eis a questão

17 de setembro de 2010

Se existe uma coisa nessa vida que eu odeio e amo ao mesmo tempo, essa coisa se chama “leitura”. Podemos também chamar essa coisa de “o ato de aprender o conteúdo de um texto escrito”, que no meu caso consiste em ler, no mínimo, vinte páginas todos os dias.

Leiturus amadus:

– Me sinto mais inteligente quando termino um livro, por mais que muitas vezes na realidade eu não fique

– Gosto da sensação do livro terminado

– Me dá forças para continuar escrevendo o meu próprio livro

– Mantém a minha mente inquieta ocupada

– É uma espécie de terapia

– Aumenta a auto-estima

Leiturus odius:

– Toma muito o meu tempo

– Me deixa aflito

– Me torna mais anti-social

– Pouquíssima gente lê

– Meus amigos não leem

– Não dá dinheiro

– Não passa de uma masturbação mental desnecessária (!?)

– Quanto mais eu leio, menos eu gosto do meu livro

– Ler é coisa de gente velha, que não teve vida digital quando era jovem.

– Ao invés de ler, eu poderia estar assistindo um bom filme dirigido pelo Tim Burton ou pelo Woody Allen

– Ao invés de ler, eu poderia estar jogando Super Mario Bros no Nintendo Wii, por mais que eu não tenha ainda este precioso aparelho eletrônico.

Ao contrário do que os filósofos pensam, pensar demais não é bom. Pensar demais gera dúvidas e dúvidas geram baixa produtividade. Pensando melhor, pensar demais gera conclusões idiotas e discricionárias, como esta.

Confesso que, pelo menos na atual conjuntura, ler vinte páginas por dia é um trabalho um tanto quanto árduo para mim. Tem gente que devora tranquilamente um livro por dia, outros corrigem cinco monografias num fim de semana. Acho que cada um tem o seu ritmo. O meu ainda está longe do ideal, mas os progressos têm sido satisfatórios. Veja que eu não estou considerando jornal, revista ou textos da internet. A minha meta diária é com livro mesmo, desses de carne e osso. Se eu ler cinco textos enormes de um famoso blogueiro e não abrir o “livro da vez”, o número de páginas lidas que eu colocarei na minha planilha do Excel será zero. Livros de poesia, mesmo os de carne e osso, também não entram na contagem. Os livros em 60% dos casos são romances e em 40% dos casos são biografias. É claro que esses dados são inventados, não fiz cálculos meticulosos, mas é bem capaz que seja isso mesmo.

Segue abaixo o número de páginas lidas nos últimos sete dias, de acordo com a planilha que eu cultivo há cerca de dois meses.

ano mês dia pgs lidas leitura

2008 set 10 sexta 20 ok

2009 set 11 sábado 6 não

2010 set 12 domingo 10 não

2010 set 13 segunda 20 ok

2010 set 14 terça 20 ok

2010 set 15 quarta 5 não

2010 set 16 quinta 13 não

Das 140 páginas que eu deveria ter lido no período, eu li 94. Temos aí um aproveitamento de 67%. Bastante razoável. Porém, a meta só foi cumprida três vezes, nos dias 10, 13 e 14.

Como não é possível (nem cabível) abrir um livro durante o horário de trabalho, e fora do expediente eu posso estar ocupado com várias outras coisas como escrever, tomar banho, jogar futebol, jantar, escovar os dentes e tocar violão, desenvolvi novos e peculiares hábitos de leitura que têm me ajudado muito a (quase) cumprir as minhas metas diárias.

1 – Banheiro

O banheiro é provavelmente o melhor recinto do mundo para ler. Você está sentado numa posição extremamente confortável, não há possibilidade de você cair no sono como acontece ao ler deitado na cama, a iluminação costuma ser excelente e não há nada nem ninguém para tirar a sua atenção do livro. Confesso que muitas vezes eu vou ao banheiro sem nenhuma necessidade fisiológica só para ler.

2 – Ler dirigindo

Trata-se do mais recente método que eu venho utilizando no meu dia-a-dia. Descobri que sinais vermelhos e congestionamentos são ótimas oportunidades para abrir o livro sobre o volante e devorar umas três ou quatro páginas num trajeto relativamente curto como Leblon-Copacabana. Eu coloco o CD do carro no pause quando paro no sinal vermelho e mando bala. Às vezes estou tão absorto na leitura que só arranco com o carro depois de ouvir uma ou duas buzinadas do carro atrás. Confesso que uma vez eu quase bati. O sinal abriu e eu estava no meio de uma frase interessante. Continuei lendo com o carro em movimento, pendendo pra esquerda, e quase raspo num outro carro na rua Jardim Botânico vindo na direção oposta. Não façam isso em casa! Quero dizer, não façam isso no trânsito. Leiam apenas em congestionamentos cavernosos, ou então, no sinal fechado com o freio de mão puxado, para não ter risco do carro se mover lentamente sem você notar. Confesso também que algumas vezes eu já peguei caminhos mais longos para ler mais páginas dirigindo.

3 – Táxi

Ler no táxi também é muito bom. Eu ainda escapo, certas vezes, de conversas insuportáveis. Vale lembrar no entanto que muitos taxistas são divertidos e vale a pena trocar uma ideia com eles. Quando eu me dou conta de que o cara é chato, eu abro o livro, ele percebe que eu estou lendo e para de falar. Quando o cara é bacana, eu deixo o livro fechado.

4 – Outros lugares

Além do táxi, do “ler dirigindo” e do banheiro, existem obviamente dezenas de outras opções para otimizar o tempo no que concerne a leitura, que eu pretendo descobrir em breve. Ir ao banco pagar uma simples conta é, muitas vezes, uma grande oportunidade para ler duas ou três páginas, dependendo obviamente do tamanho da fila do caixa. Dentistas e consultórios em geral, nem se fala. Além do que, aquelas revistas de fofoca amarfanhadas de três anos atrás não chegam a ser uma concorrência muito tentadora para eu não ler o meu livro.

Outros lugares como cinemas, restaurantes e estádios de futebol também podem ser uma boa saída rumo ao cumprimento da meta diária. Dependendo do tamanho do livro, vale à pena colocá-lo no bolso, a caminho do Maracanã, para ler naquela espera enfadonha antes da bola rolar. Mas é claro que a busca por lugares alternativos tem limite. Se você me encontrar numa boate com um livro debaixo do braço ou no bolso da calça, pode me internar num hospício.