Archive for the ‘celebridades’ Category

Uma Odisseia em Seattle com o Bad Religion

17 de fevereiro de 2011

As pessoas se empurravam como se fossem feitas de borracha. Outras navegavam por cima da multidão como se estivessem num caiaque, navegando em mar agitado. Eu ficava na defensiva, imóvel, tentando manter os pés fincados no chão. Todo o cuidado era pouco para não entrar num redemoinho e ser lançado para longe.

***

Era o meu último dia em Vancouver. Depois de jantar com um casal de amigos, fui sozinho a um bar irlandês que tinha conhecido rapidamente na noite anterior. Não estava com paciência para tomar cerveja e sorvi três maravilhosos Captain´n Coke, que me deixaram um tanto quanto trôpego no caminho de volta ao albergue. Tinha que acordar muito cedo no dia seguinte para pegar um ônibus para Seattle, o último destino da viagem. Mas quase chegando ao meu dormitório, eu avistei um cyber café ao lado de uma pizzaria e achei que valia a pena comer uma fatia de pizza e checar o e-mail. Na verdade, só valia a pena mesmo a fatia de pizza. Checar o e-mail às três da madrugada, sendo que eu tinha que fazer a mala e estar na rodoviária às nove, era uma ideia estúpida e irresponsável. Eu ia acabar olhando facebook, globoesporte.com, enfim, gastar um tempo precioso que eu não tinha e se não bastasse isso, não teria condições de responder os e-mails porque estava muito bêbado para isso. Então, além de não responder nenhum e-mail pendente, eu entrei também na The Bad Religion Page, o maior site dedicado ao grupo de punk rock Bad Religion na internet.

Antes de embarcar para San Francisco, a primeira cidade que eu visitei na viagem (clique aqui e leia o texto que eu fiz dedicado a San Francisco), eu criei um novo tópico no fórum desse site no qual eu dizia que estaria no show deles em Seattle, no dia 17 de novembro. Como as pessoas não me conheciam pessoalmente, não obstante os meus covers acústicos de Bad Religion que eu posto no YouTube desde 2007, eu disse que estaria usando a camisa de futebol da Croácia, que é muito chamativa com as suas cores branca e vermelha no modo xadrez. Por mais que eles lembrassem do meu rosto dos vídeos, eu seria só mais um na multidão, quase impossível de ser localizado à distância.

Uma hora antes de eu entrar naquele cyber café, um americano do Texas postou no tal fórum criado por mim que o Greg Graffin, vocalista da banda, iria autografar o seu último livro num outro local, um pouco antes do show. Aquela minha ida ao cyber café, antes uma irresponsabilidade sem tamanho acabou se tornando algo heróico. No dia seguinte eu dificilmente entraria na internet e ficaria sem saber da sessão de autógrafos. Eu iria chegar em Seattle na parte da tarde e ficaria passeando até a hora do show, marcado para as 20 horas.

Todos os passageiros do ônibus tiveram que descer na divisa com os Estados Unidos. Fiquei intrigado com um enorme aviso numa parede enquanto aguardava a minha vez. “We do not accept canadian money here”. O que me espantou não foi o fato deles não aceitarem o dinheiro canadense, isso era óbvio, mas eu não imaginava que eles iriam chamar de “canadian money”. O nome da moeda é “Canadian dollar”. Eu posso estar errado, mas achei um certo descaso chamar de “dinheiro canadense”, como se isso fosse algo inferior. “Não aceitamos essa merda aqui”. Foi o que soou pra mim ao ler o aviso.

Sabendo que só teria algumas horas daquela quarta e o dia todo de quinta para conhecer a cidade, me hospedei num hotel no coração de Seattle.

A sessão de autógrafos estava marcada para às 18 horas e acabou que deu tempo de passear um pouco a pé pelas redondezas. Eu pensava que o Greg Graffin estaria numa micro bancada esperando meia dúzia de fãs, o que me levou a chegar meia hora atrasado. O nome do lugar era Town Hall. Não parecia nem um pouco com uma livraria. Tinha um cara na porta que me disse que a entrada custava cinco dólares. Sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, paguei a quantia solicitada e entrei. Deviam ter umas duzentas pessoas. Todas elas sentadas, em silêncio, ouvindo atentamente o vocalista do Bad Religion. Ao lado dele, também de microfone em punho, estava o co-autor do livro, que fazia o papel de entrevistador. Praticamente todos os assentos estavam tomados, sobretudo aqueles mais próximos ao palco. Mas como eu estava sozinho e as pessoas sempre deixam um ou outro espaço vazio entre elas (adquiri essa experiência de tanto ir ao cinema desacompanhado), procurei um assento vago nas três primeiras filas e, como de costume, encontrei. Perguntei a uma linda menina se o lugar ao lado dela estava vago. Me olhou com cara de poucos amigos, mas fez que sim. Ela estava séria, compenetrada e fazia anotações num caderno. Provavelmente era fã do Greg Graffin professor de biologia na UCLA e não fã do Greg Graffin vocalista de uma banda de punk rock. Seja lá o que for, nunca vou saber se ela realmente conhecia as músicas aceleradas, curtas e melódicas escritas por aquele homem semi-careca.

Graffin andava de um lado para o outro enquanto falava sobre religião, fé, sociedade, sua vida pessoal e questões biológicas mais técnicas, aliás, super técnicas. Ele basicamente fez um apanhado geral do livro que eu tinha acabado de ler na viagem de ônibus para Seattle.

Depois de mais uma resposta eloqüente do vocalista do Bad Religion, o entrevistador e co-autor comunica que a palestra está chegando ao fim, mas antes, eles iam abrir para algumas perguntas da platéia. A produção do evento tinha posicionado dois microfones, um de cada lado do palco. Quem quisesse fazer perguntas ao Greg, deveria ir até um dos pedestais e mandar ver.

Quando eu soube dessa palestra, quer dizer, eu pensava que era apenas uma sessão de autógrafos comum, daquelas que a pessoa dá o livro para o autor assinar, troca meia dúzia de palavras com ele, bebe um vinho de quinta categoria e vai embora. Enfim, quando eu fiquei sabendo desse evento pelo fórum que eu havia criado na “The Bad Religion Page”, eu cogitei pela primeira vez perguntar ao Greg se eu poderia cantar uma música com a banda no palco. Por mais insano que aquilo pudesse parecer. Desanimei um pouco quando vi aquela multidão, mas continuava com o mesmo plano na cabeça. É claro que eu não iria perguntar naquele auditório lotado, na frente de todo mundo. Isso estava fora de questão.

As perguntas da platéia iam se sucedendo e de repente uma voz interior muito poderosa começou a falar comigo e a me fazer uma série de perguntas, ameaças e ofensas morais.

– Você quer mesmo cantar com a banda? Sim ou não?

– Sim – eu respondi.

– Então não deixe para perguntar quando o Greg estiver assinando o seu livro. Ele provavelmente vai dizer não. Você tem que perguntar agora, nesse segundo, na frente de todo mundo.

– Você tá louco, não vou fazer isso – retruquei, com desdém.

– Bom, o recado está dado.

Uma fila de duas pessoas se formou atrás de cada um dos microfones. A sessão de perguntas da plateia transcorria sem grandes emoções até uma menina perguntar alguma coisa sobre a educação dos filhos dele. A resposta veio num tom ríspido e seco. “Bom, acho que da educação dos meus filhos cuido eu”. A menina ficou visivelmente sentida e ele tratou logo de consertar a frase infeliz, se desculpando e amaciando as suas palavras. O professor punk ateu ainda aproveitou para dizer que não tem mesmo muito talento ao dialogar com as pessoas. Disse que volta e meia acaba dizendo alguma coisa ríspida contra a sua vontade.

– Está bem, você venceu – eu disse, para a minha voz interior.

Levantei da cadeira e fui até o final de uma dass filas. Na minha frente, uma única pessoa.

– Sábia decisão, meu caro. Agora presta atenção numa parada. A escolha da música é crucial. Você precisa pedir uma música curta, que você saiba 500% a letra, que esteja já num tom apropriado para a sua voz e não pode ser muito famosa. Os fãs normalmente preferem escutar os grandes clássicos cantados pelo próprio vocalista da banda.  Não pode ser também uma música que eles nunca tocam ao vivo, pois eles precisaram de ensaio antes do show e isso está fora de questão. Tem que ser uma música freqüente no set list da banda.

– O que você está me dizendo faz todo sentido. Mas não é melhor eu primeiro perguntar se posso cantar com eles? Se ele disser que sim, depois eu decido com a banda qual música eu canto.

– Você está de sacanagem, né? Você acha mesmo que o Greg Graffin vai dizer “está bem, meu filho, qual música você quer cantar?”. Aí você gagueja e responde “vou pensar até a hora do show”. Não, porra. O discurso tem que ser curto, na lata, direto. Não é pra ficar de lenga-lenga. Você precisa ser firme.

Então eu me lembrei do dia 13 de março de 1999. Uma amiga descobriu o hotel que a banda iria se hospedar no Rio e me chamou para ir com ela. Eu recusei num primeiro momento porque achava ridículo essa história de encontrar banda em hotel. Aquilo era coisa de menininha fútil de treze anos e eu já estava quase me formando no colégio. Porém, por mais bizarro e infantil que fosse, era a chance que eu tinha de conseguir um autógrafo de todos os integrantes, fazer um quadro e colocar na parede do meu quarto.

Ficamos esperando algum tempo no saguão do hotel ao lado de cinco ou seis outros fãs e eu não tinha planejado nada de interessante para dizer a eles. Então, quando adentraram o saguão do hotel, fiquei praticamente mudo enquanto o meu encarte do disco solo do vocalista era assinado por todos. Aliás, uma grande mancada minha. O encarte tinha que ser de um dos discos da banda. O meu nervosismo / timidez / falta de planejamento conversativo só foi superado no momento em que eu perguntei ao baixista Jay Bentley e ao vocalista Greg Graffin se era possível eles tocarem a música “Anesthesia” naquela noite. Eu tinha ido ver a banda quatro dias antes em São Paulo e esta canção, de 1990, não estava no repertório. Para o meu espanto, a música foi tocada no show do Rio, mesmo sem fazer parte do set list dos outros shows da turnê do Brasil, conforme eu pude constatar via internet alguns dias depois. Eles tocaram duas vezes em São Paulo, depois foram para Santos, Curitiba e, por fim, Rio.

Anesthesia não é uma música tão famosa quanto American Jesus, Infected, Sorrow, e 21st Century Digital Boy, tem curta duração, o tom é apropriado para a minha voz e eu sabia 500% a letra. Logo, atendia a todos os pré-requisitos estabelecidos pela minha voz interior, que aprovou a canção com louvor segundos antes do meu pequeno discurso:

– I came all the way from Brazil to see you guys up here. I have more than 50 Bad Religion acoustic covers in YouTube, including a duo with Emily Davies.

– Eu a conheço. Qual é a música que vocês fizeram? – ele disse.

– Strange Denial, está no Youtube. Is it possible to sing the song Anesthesia on stage with you guys tonight?

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, só deu tempo dele fazer uma cara de espanto, a plateia riu e inundou o auditório com palmas efusivas. O mais curioso desse episódio é que durante a longa conversa que eu tive com a minha voz interior, nenhuma das partes cogitou que a platéia jogaria ao meu(nosso) favor. E eu acho que foi justamente esta incrível solidariedade internacional que me salvou.

– Se você for ao show com essa camisa e eu conseguir te ver lá na frente, está tudo bem, você pode cantar.

Voltei ao meu lugar. A menina ao meu lado continuava com a cara fechada, agora fazendo par com o seu caderno de anotações.

Fim da sessão de perguntas. Enquanto os fãs formavam uma fila para o Greg autografar, eu fui correndo até o hotel para deixar o meu livro no quarto e pedir um táxi. Eu já tinha comprado o meu ingresso do Brasil pela internet um mês antes, mas nunca se sabe. Se eu já sou normalmente ansioso, tente imaginar como eu estava naquele momento. Levei todo o dinheiro vivo que eu tinha reservado para os últimos dois dias da viagem. Eu não economizaria dinheiro num cambista se alguma coisa desse errado.

Felizmente não foi preciso conversar com nenhum cambista. Apresentei o meu passaporte, eles localizaram o meu nome, recebi o ingresso e entrei. Antes do Bad Religion, duas bandas locais de punk rock iriam tocar cerca de meia hora cada uma. Fui até o bar e pedi uma dose de whisky. Algumas pessoas que estavam na palestra me reconheceram e desejaram sorte na minha empreitada. Fiquei zanzando pelo lugar para matar o tempo até que eu encontrei o tal cara que postou no fórum sobre a sessão de autógrafos do vocalista. Eu disse que se não fosse ele, eu nunca teria sequer a chance de subir naquele palco. Ficamos conversando no bar enquanto a primeira e a segunda banda faziam shows mornos, sem nada de especial. A sua namorada, que quase não abriu a boca e desconhecia Bad Religion por completo, não estava dando conta dos chopps que ele trazia e eu acabei tomando por ela. Duas doses de whisky e três copos caprichados de cerveja depois e eu estava completamente sóbrio. Acho que diante do meu estado de excitação e nervosismo, nem se eu virasse uma garrafa inteira de rum eu ficaria bêbado. Eu poderia ser internado no hospital com parada cardíaca, mas ficaria sóbrio até o momento do piripaque.

– Assim que acabar o segundo show, a gente vai lá pra frente do palco. Eu te ajudo a chegar lá.

– Mas e a sua namorada?

– Não se preocupe, ela vai junto.

– Tem certeza?

– Cara, a gente tem uma missão aqui. Você tem que subir naquele palco.

Com muita dificuldade, a gente chegou perto do palco. Mas ainda tinha muita gente na nossa frente. Era definitivamente impossível seguir em frente.

– Quando começar a primeira música, a gente dá um chega pra lá nessas pessoas e vai pra primeira fila.

– Será? Acho que vai ser meio complicado – eu disse.

O meu novo amigo americano não deixava ninguém passar. Pedia gentilmente para os aventureiros darem a volta pelo outro lado. Alguns insistiam, ele engrossava o tom e eles desistiam. Este roteiro se repetia enquanto as pessoas começavam a empurrar umas às outras com mais força, formando ondas humanas. Pouco antes do início do show eu disse que ele não precisava se preocupar em me levar para a beirinha do palco. Eu tinha uma ideia que supostamente resolveria o problema e felizmente funcionou. Logo na primeira música do show, “Do what you want”, eu tirei a camisa da Croácia (estava com uma camisa branca por baixo, logo, não fiquei sem camisa) e a agitei na direção do vocalista. Ele apontou pra mim e riu. A missão estava cumprida. Eu havia feito a minha parte com a grande ajuda do americano, que achou melhor ir para longe do palco com medo da sua namorada ser pisoteada pela multidão.

Assim que acabou a décima sexta música do show, Ten in 2010, do disco The Gray Race, Graffin começou o discurso que eu esperava ansiosamente.

– A banda não sabe disso ainda, mas aconteceu uma coisa hoje na palestra sobre o meu livro. Um garoto brasileiro me perguntou se poderia cantar uma música e eu disse que sim. Apesar de eu ser um cara que cumpre promessas, eu preciso saber da opinião de vocês. E então, quem acha que o brasileiro deve cantar levanta a mão.

Olhei pra trás e vi um mar de pessoas com os braços levantados. A vontade de urinar que me perseguia de uma maneira indescritível desde o início do show de repente desapareceu. Eu nunca segurei tanto o xixi como naquele dia.

– Quem não quer que o brasileiro cante?

Poucas pessoas levantaram a mão.

– Ok, you win! Come on up!

“Esse cara sou eu, me ajudem a sair daqui”, eu dizia sem parar, esprimido lá na frente. As pessoas acreditaram em mim e um garoto fez o famoso “pezinho” para eu escalar a grade de contenção. Uma vez no mata-burro, espaço entre o público e o palco, perguntei ao segurança “como proceder?”, ele apontou para o lado esquerdo do palco. Subi sem dificuldade. O que aconteceu no palco pode ser visto no vídeo abaixo.

Saí do palco arrasado. Tudo bem que eu estava nervoso, que era a realização de um sonho, que a platéia era enorme, mas ainda assim, eu não podia ter esquecido um pedaço da letra. Os fãs vieram falar comigo em estado de êxtase, muitos pediram para tirar fotos e ganhei até cerveja de graça no bar. Mas nada disso aliviava a minha frustração. Quase não dormi esse dia por causa dessa maldita letra. Levei uma semana para me desculpar pelo erro e finalmente curtir aquele momento único que vou levar para o resto da vida.

Deus é gay.

3 de maio de 2010

Domingo de sol no Rio. Acordei meio dia. Liguei o computador para ver onde estava passando o novo filme do Woody Allen. Poucas opções. Unibanco Arteplex, 14h20, me pareceu interessante. Poderia assistir à final do campeonato paulista na sequência e ainda daria tempo para um almoço caseiro.

Foi só quando eu estava na boca do caixa que eu entendi porque diabos a fila da bilheteria era tão grande, visto que duas horas da tarde de um domingo de sol não era horário pra ninguém, a não ser eu, se embrenhar num cinema em Botafogo. O motivo era óbvio. Agora quem era cliente do Itaú também tinha direito a meia entrada. Até pouco tempo atrás, somente os clientes do Unibanco tinham esse privilégio. Fusão é fusão, não tem jeito. A Allianz Seguros que o diga. Perderam o posto de seguradora do Unibanco Arteplex para a Itaú Seguros.

Poderia citar aqui umas 20 vantagens de ir ao cinema sozinho. Uma delas seria a incrível facilidade para conseguir um lugar vago numa sessão praticamente lotada, como era o caso de “Tudo pode dar certo”. Sabe quando um casal de namorados, ao comprar suas entradas, pulam uma cadeira para ficarem mais à vontade, sem ninguém ao lado? Pois é. O universo está sempre conspirando ao meu favor nesse sentido.

Mas dessa vez não era um casal de namorados e sim duas velhotas, provavelmente amigas de longa data, daquelas que caminham todo santo dia no calçadão da praia esmiuçando abobrinhas. Aliás, a sala estava empesteada de gente velha, de modo que o ser humano mais jovem, sem sombra de dúvidas, era eu.

O filme de Woody Allen consegue ser absolutamente genial já nos primeiros cinco minutos, mas se eu contar o motivo, perde a graça. Aliás, se eu contar a história do filme, também perde a graça. Por isso eu separei para vocês um pequeno diálogo impagável de dois homens conversando num bar:

– Deus é gay – disse um deles, no momento em que a conversa tombava para o lado da religião.

– Não tem como, cara. Ele fez o universo perfeito. Os oceanos, o céu, as belas flores, as árvores em todos os lugares.

– Exatamente. Ele é um decorador.

Vida de celebridade no twitter não é fácil.

24 de fevereiro de 2010

Pra quem acha que ser celebridade no twitter é uma maravilha, está redondamente enganado. Num primeiro momento pode até parecer interessante divulgar o seu trabalho e as suas gloriangústias diretamente para cem mil pessoas que supostamente te admiram e torcem pelo seu sucesso, mas, vamos fazer uma pequena pausa para respirar porque a frase está muito grande. Pronto. Calma. Respira mais um pouco. Agora vai. Então como eu ia dizendo, pode parecer legal num primeiro instante uma legião urbana de fãs acompanhando a sua vida, mas o que fazer com as milhares de mensagens (replys) enviadas por estes mesmos seguidores? Se o famoso não responder a ninguém, ele será tachado de antipático, metido e arrogante. Se ele responder a algumas pessoas, os que não forem respondidos ficarão furiosos e se ele responder a todos, não terá mais vida – passará o resto dos seus dias no twitter.

Fiz uma pequena pesquisa a partir das respostas dos famosos a anônimos no twitter e identifiquei 5 tipos de seguidores de celebridades:

1) OS PASSIVOS

Cliquei em alguns seguidores de famosos a esmo e verifiquei que muitos sequer haviam escrito alguma coisa em suas páginas. Outros até escreviam, mas não respondiam aos famosos, apenas aos próprios amigos (talvez porque não tenham coragem ou então não queiram importunar seus ídolos). Os passivos, ao meu ver, são a grande maioria.

2) OS BONZINHOS

Os bonzinhos são aqueles que raramente respondem aos famosos. Enviam uma mensagem positiva e que não exige resposta, como por exemplo, “adoro o seu trabalho”, ou “você é lindo”, ou ainda, “obrigado por existir”. Quer um exemplo? Então entre na conta da @_prit. No dia 28 de janeiro ela postou uma foto no seu twitpic com a VJ @marimoon da MTV. Veja que ela apenas diz “obrigado pela simpatia”, nada mais. E no seu histórico de twitts não encontrei outros replys destinados a apresentadora do cabelo azul.

3) OS INVEJOSOS

Os invejosos também respondem raramente, mas quando o fazem, enviam uma frase pesada, pronta pra derrubar o ego do famoso e deixá-lo com vontade de mandar um reply mais desaforado ainda, ou então bloquear o desocupado. Seja qual for a reação do famoso, o invejoso ficará muito feliz. É comum este anônimo invejoso comentar com os seus seguidores as consequências da sua infantil mensagem: “Galera, o fulaninho me respondeu, deixei ele puto KKKK”, “fui bloqueado pelo Beltrano hahahah” ou então, “não sabia que fulaninho não tinha senso de humor, ele me parecia equilibrado ufadagsydfydhah”. (esta palavra incomunicável ao lado seria a risada do idiota)

4) OS FANÁTICOS

Estes são de longe o pior tipo. Apesar de serem a grande minoria, costumam ser tão chatos, tão insuportáveis, que compensam os twitts não enviados pelos passivos. Escrevem mais de 10 mensagens para o seu ídolo por dia e exigem atenção total, como se fossem bebês recém nascidos. Vejamos o caso da @manu_recife. Ela mandou 50 mensagens para a @ivetesangalo pedindo, ou melhor, implorando para que uma foto do Fã Clube “Coração Iveteiro” fosse postada no blog oficial da cantora.

5) OS OPORTUNISTAS

Os oportunistas aproveitam “tags” que estão na moda como #4palavrasdepoisdosexo, desenvolvem uma frase super criativa do tipo “Jagger, I am pregnant” e disparam para centenas de famosos na esperança de que pelo menos um deles dê um RT (não sabe o que é RT? Então nem sei como leu o texto até aqui).

Mas afinal, o quê os oportunistas ganham com isso? 15 segundos de fama e um aumento significativo de 2 ou 3 seguidores por conta de sua frase exposta para cem mil pessoas, e claro, dependendo de quem seja o oportunista, este simples RT pode deixar o seu ego inflado para sempre.

Ancelmo

5 de julho de 2009

No Festival Literário Internacional de Paraty de 2004, eu literalmente caí de pára-quedas numa pelada do Chico Buarque contra um time local. Joguei na equipe dos “artistas” e a partida terminou 3 a 2. Depois de uma bela jogada minha pela esquerda, cruzo rasteiro na área para o meu irmão fazer o gol da virada, o gol da vitória.

Cinco anos depois e o compositor de “Mulheres de Atenas” está de volta para divulgar o livro “Leite Derramado”. Eu também. Minha mãe conhece um cara que trabalha com ele. Peço ajuda a ela, ela topa, aceita me ajudar. Meus olhos brilham, minhas chuteiras também. As coloco na mala, dentro de um saco plástico.

Quinta-feira, almoço super cool em Paraty, ela está diante desta pessoa, que conversava com o colunista do jornal O Globo Ancelmo Gois, o mesmo que entregou Adriano, o comedor de cachorro-quente. Mamãe conta como foi a conversa.

– Você sabe se o Chico vai jogar futebol em Paraty dessa vez? Meu filho jogou com ele em 2004 e…

– Não, ele está contundido. Infelizmente não vai ter pelada.

Recebo a notícia com o coração partido e no dia seguinte minha mãe me mostra o jornal e diz:

– Paulo, você sem querer deu uma nota para o Ancelmo Gois. Ele ouviu a minha conversa com Fulano e publicou que o Chico está machucado e não vai ter futebol.

Li a nota, ri um pouco e me servi de suco de laranja.

O grande erro da L´Oréal Paris

30 de janeiro de 2009

Desde que eu me entendo por gente a L´Oréal Paris faz pouco caso do Brasil em termos publicitários. Tratam a gente, quer dizer, as mulheres, como idiotas. Até quando vão continuar exibindo na TV anúncios dublados? Ninguém aguenta mais ver a Penélope Cruz ou a Sandra Bullock como se fossem o “Fucker and Sucker” do Casseta e Planeta. Não creio que seja muito caro colocar a Grazi Massafera – que foi contratada recentemente para ser a garota propaganda deles, só que de mídia impressa – também na TV.

Eu não sei quem é o responsável pela publicidade da L´Oréal por aqui, mas aposto cerca de duzentos reais que seja um francês, daqueles bem cabeça-dura e arrogante -“ah, arruma o dublador mais barato que tiver, só de ver uma celebridade gringa na TV, a consumidora brasileira vai gostar”.

Sorte que eles têm um produto excepcional, porque se fossem depender da qualidade e da criatividade dos seus anúncios na TV, a coisa estaria bem feia pro lado deles.

Obs.: Hoje (4 de fevereiro) eu descobri que a MTV é o único canal brasileiro que exibe um anúncio da L´Oréal feito por Vjs da emissora, ou seja, não é dublado.  Isso é um bom caminho, mas e quanto à Globo, SBT, Bandeirantes e muitos outros?

O dia em que conheci Nilmar, jogador do Inter

12 de dezembro de 2008

– Tenho aqui um convite para a cerimônia do Prêmio da CBF e outro para a festa, que acontece no MAM, logo após a entrega de prêmios. Você quer ir? – disse uma amiga minha no MSN.

– Sensacional! Que horas é? – eu disse.

– A entrega de prêmios é às 21 horas. A festa é logo em seguida, tipo 23 horas.

– Tenho um ensaio com a minha banda das 22 às 24 horas. Se eu fosse, chegaria só para a festa. Se bem que o meu carro vai estar cheio de tralha de ensaio (pratos, pedaleira, guitarra), então até chegar ao MAM depois de deixar tudo em casa, seria lá por volta de uma, uma e meia da manhã. E ainda teria que botar terno, né?

– Não tem como marcar o ensaio para outro dia?

– Pior que não tem. É o único dia e horário que os cinco integrantes podem.

– É…Talvez fique meio tarde mesmo, porque cai numa segunda-feira. Faz o seguinte, vou estar com o seu convite da festa, qualquer coisa me liga.

– É mesmo? Poxa, muito obrigado.

O ensaio não podia ter sido melhor. Fui pra casa muito animado e disposto a ir à festa, por mais que eu tivesse que acordar muito cedo no dia seguinte.

– Oi Fulana, tudo bem? Acabei de chegar em casa. Rola de ir pra festa?

– Com certeza Pilha! A festa está começando agora só, pode vir!

Como não podia ser diferente, abusei da caipirinha de tangerina – estava realmente estupenda. Conhecia poucas pessoas, mas conhecia muita gente de vista, a julgar pelo Washington, do Fluminense, Juan, do Flamengo, Caio Ribeiro, comentarista, Tcheco, do Grêmio, e tantos outros que no final das contas consomem um tempo assaz considerável da minha rotina de vida. Os empregados da festa, sobretudo os garçons, estavam em êxtase. Alguns até tiraram foto com os seus ídolos, o que não deve ter deixado o chefe deles muito contente.

Lá pelas tantas, encontro uma amiga que não via há pelo menos um ano. Conversa vai, conversa vem.

– Estou indo pra Pizzaria Guanabara agora. Quer ir?

– Pode ser – eu disse

– Tá indo também o Nilmar e um amigo dele.

– Tipo, o Nilmar Nilmar, o jogador?

– Esse mesmo.

– Entendi, vamos lá!

– Você tá de carro?

– Estou sim.

– Pode dar uma carona pra gente?

– É lógico.

Pouco tempo depois…

– Foi mal aí galera. Esqueci de tirar esses instrumentos do carro, tô achando que só vai caber eu e mais um.

Nilmar fez uma cara de “como assim? Que instrumentos são esses?” e foram os três pegar um táxi, me deixando sozinho no carro ao som de Little Joy, no volume 29.

Sentamos os quatro em uma mesa na varanda. Nilmar pegou o cardápio e disse que queria pedir uma pizza. Estava em dúvida em que tamanho pedir.

– Cara, faz o seguinte. Acho melhor você pedir fatia ao invés de média ou grande.

Ele seguiu o meu conselho e pediu uma fatia de Marguerita e uma Coca-Cola para acompanhar. Eu, o amigo dele e a minha amiga, pedimos um chopp.

– Esse cara é uma figura – disse o Nilmar, quando o amigo foi ao banheiro -, ficou tirando onda com o meu prêmio lá na festa, como se fosse dele.

– Ué, mas ele não é seu amigo? – eu disse.

– Não! Conheci hoje!

Realmente o cara era uma figura. Só ele praticamente falava na mesa, era o centro das atenções. Nilmar falava pouco, mas estava sempre rindo e se divertindo, sobretudo com os comentários deste ser, que eram ilustrados uma vez por minuto pelo impagável provérbio “você acha que eu fui pra escola pra comer merenda?”

Pelas declarações do Gustavo (nome fictício) cheguei à conclusão de que ele era um legítimo bicão de festa, visando sempre estar próximo das celebridades. Entre as suas histórias mais estapafúrdias, disse que tinha ficado com a Giovana Antonelli no Sushi Leblon e que chegou a jogar no Vasco da Gama, onde foi banco do Felipe, ex-Flamengo e ex-Vasco.

Disse a mim mesmo que ia ficar quieto, mas não resisti:

– Na boa cara, eu trocaria todos os atacantes do Flamengo por você. Com certeza a gente teria sido campeão brasileiro com você em campo.

– O Kleber Leite até me deu uma camisa do Flamengo escrito Nilmar, achei muito legal.

Ele disse que a sua família era do Paraná e que todos torcem para o São Paulo.

– Ué, então você é são paulino?

– Eu parei de torcer para o São Paulo quando cheguei no Inter, com 15 anos.

Não consigo me lembrar de mais nada que foi dito durante aquele encontro inesperado, mas sai com uma impressão muito boa do Nilmar. É um cara simples, bem-humorado, enfim, está longe de ser metido e arrogante, como muita gente famosa é.

Adoradores Enrustidos de Galvão Bueno

24 de outubro de 2008

Mesmo com comidinhas sensacionais, caipirinhas suculentas e grandes clássicos inusitados da década de 80 executados pelo “DJ Pod”, muitos convidados se acotovelaram no quarto da aniversariante – tinha gente sentada no chão, na cama e até em pé – para acompanhar a final masculina de vôlei das olimpíadas de Pequim entre Brasil e Estados Unidos. Xingamentos ferozes, não obstante a presença de lindas moças, eram ouvidos a cada ponto, seja do Brasil ou do adversário. Mas devo dizer que a escolha do canal me abalou pelo menos cem vezes mais do que a maneira pela qual os homens procuravam impressionar as moças solteiras ali espremidas.

 – Por que a gente não vê na Globo? Com o Galvão Bueno tem muito mais emoção! – teria dito eu.

Quase fui expulso do quarto. Dos cerca de vinte presentes, apenas um ou dois timidamente concordaram comigo. Disseram que o Galvão era um imbecil, que era inadmissível ele narrar futebol, natação, Fórmula 1, atletismo, que isso seria muita pretensão não só da sua parte, como da parte de qualquer ser humano. Ouvi as críticas calmamente e rebati:

– Vocês conseguiriam ver uma final de Copa do Mundo pela televisão, com o Brasil jogando logicamente, sem a narração do Galvão?

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Parecia aquelas transmissões internacionais ao vivo, onde o enviado especial leva um certo tempo para ouvir a pergunta do jornalista que está no Brasil. Responderam com menos veemência, mas mantiveram a postura anti-Galvão, deixando bastante nítido para mim que o orgulho deles tinha falado mais alto.

Concordo que ele fala muita bobagem, mas a emoção transmitida em suas transmissões nenhum outro narrador transmite. O que seria do Ayrton Senna sem o Galvão? Podem me xingar que eu não ligo. O que seria do Rrrrrrrrrrronaldinho sem ele? O que seria do Taffarel – “sai que é suuuuuuuuuuua Taffarel”? O que seria do programa “Bem, amigos”? O que não falta por aí é anti-Galvão assistindo jogo na Globo com a desculpa de que a transmissão do Sportv é pior. Conta outra, ok? Está cheio de comunidade no Orkut pregando o seu fim, mas eu acho que muita gente que diz que ele é ridículo, poderia tranquilamente fazer parte da comunidade “Adoradores Enrustidos do Galvão Bueno”.