Archive for the ‘história’ Category

Como amassar latas de cerveja em escala

17 de junho de 2011

A história que eu estou prestes a contar pode ser repetida para alguns ou muitos de vocês. Se for este o caso, não vou ficar chateado com o seu comentário ou pensamento negativo ao meu respeito. Vou entender perfeitamente a sua sensação de tempo perdido, ainda mais com tantas fotos e status de relacionamento que você precisa curtir e comentar no Facebook.

Mas caso você nunca tenha ouvido esta história e mesmo assim a considere insignificante, meus pêsames: você tem um futuro negro pela frente. Antes que você me chame de convencido, prepotente e metido, entenda que  não estou me referindo ao texto. O seu futuro, seja este negro ou brilhante, não tem qualquer relação com o fato de você gostar ou desgostar do meu jeito de escrever.

Isso tudo para dizer que eu vi um revolucionário catador de latinhas no centro do Rio. Mais especificamente na Rua do Rosário. Talvez ele não seja o precursor dessa técnica, mas como nunca vi ninguém fazendo um troço desses antes, para mim ele é o guru das latinhas. Vi o homem despejando na calçada uma enorme e suja sacola plástica contendo cerca de 60 latas. A Rua do Rosário, para quem não sabe, é uma estreita rua de paralelepípedos, muito estreita (nem ouse levar a sua Land Rover para passear por lá), muito estreita mesmo, com baixo movimento de carros e fedorenta. O herói da nossa historinha começou a chutar as latas para dentro da rua. Sim, para dentro da rua. De tão alto, o meio fio parecia um muro de uma escola infantil. Veja que ele poderia ter jogado as latas todas de uma vez nas pedras de paralelepípedo. Mas alguns minutos depois fui entender que chamaria muita atenção dos carros e dos transeuntes, então  foi bicando discretamente em doses homeopáticas. Se ele estivesse muito próximo à cena do crime, os motoristas poderiam forçá-lo a retirar os seus pertences do meio da rua, mas como não tinha ninguém por perto, era melhor passar de uma vez do que ficar se queixando com o vento.

Chutou umas vinte latas e se fingiu de transeunte, como se aquelas latas não tivessem nada a ver com a vida dele. Passou o primeiro carro, logo depois veio o segundo. Ele tinha conseguido amassar grande parte das latas. Era este o seu método, que também consistia em arrumar as latas que já estavam na rua, de modo que estivessem na trilha das rodas, e não no intocável e improdutivo miolo. Experimente andar em cima de um monte de plástico bolha. O efeito produzido pelos veículos era o mesmo. Sim, o nosso amigo é um gênio.

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Uma odisseia na prova de auto escola

17 de maio de 2011

Entrei no carro. Bati a porta. Endireitei os retrovisores com a mesma destreza que eu ajeitava os pedestais de prato da bateria na época em que me apresentava ao vivo frequentemente. Já vi gravado em fita e tudo. Isso mesmo, fita cassete. Faz muito tempo. Termina a música, eu me levanto, mexo 2 milímetros na altura do prato de ataque Zildjian e me sento novamente no banquinho. Dou uma nova olhada, mas não gosto da posição do prato, que parecia perfeita quando eu estava em pé fazendo os ajustes.  Me levanto novamente e mexo, dessa vez, 1 milímetro e meio. Vale dizer que uma banda inteira composta por dois guitarristas, uma vocalista, uma percussionista e um baixista espera pacientemente pelos meus caprichos bizarros. Felizmente estes ajustes cirúrgicos se perderam completamente com o passar dos anos. O mesmo vale para os retrovisores.

Liberei o freio de mão. Liguei o carro. Engatei a ré. Percorri um percurso aproximado de 0, 0003 quilômetros.

– Para! Para!

(agora o verbo “parar” no presente da terceira pessoa do singular não leva mais acento)

Olhei indignado para o aplicador da prova.

– O que houve?

– Você esqueceu de botar o cinto. Perdeu 3 pontos.

– Isso quer dizer que…

– Isso mesmo. Você não pode perder mais nenhum ponto.

Eu ainda tinha que entrar na porcaria da vaga, sair com o carro da mesma vaga e dar uma volta no percurso oval com a presença de motoristas comuns, quer dizer, já gabaritados pelo Detran. E sem cometer mais nenhuma falta. O carro chacoalhava feito uma máquina de lavar. O meu pé direito parecia meio dormente por causa do nervosismo. Não sei bem o que houve. Só sei que lá pelas tantas, ainda tentando manobrar na vaga, a máquina de lavar pifou. Alguém tirou da tomada ou a luz do prédio acabou. Vá saber.

Olhei para o aplicador da prova com a mesma cara do Gato de Botas do Shrek.

– Liga logo esse carro, antes que algum colega perceba.

Tecnicamente eu tinha 5 pontos.

– Muito obrig…

– Se concentra aí garoto. Mais meio ponto e eu te reprovo. Não fala nada. E dá um jeito nesse carro. Balança mais que uma charrete guiada por um asno (na verdade ele não disse exatamente isso, mas achei que tornaria o texto mais interessante).

Não cometi mais nenhuma falta. Fui aprovado com (duvidoso) louvor. Demorei cerca de um ano para aprender a dirigir, ou melhor, deixar de ser uma ameaça constante para motoqueiros, caminhoneiros, motoristas de ônibus, pedestres e quem mais estivesse no meu caminho. Aproveito a oportunidade para agradecer a paciência de todos os amigos que estiveram comigo nesta difícil jornada iniciante, seja no banco carona ou no banco traseiro. Não sei o que era pior. Ver o perigo de camarote pelo banco da frente ou ficar no banco de trás e ver o perigo com menos exatidão. Pedidos inusitados como este eram comuns: “vê aí pra mim se eu posso mudar de faixa”. Este pedido assustava ainda mais os meus amigos. Eu dizia que era impossível olhar para o retrovisor e para a frente ao mesmo tempo. Quando os amigos se reuniam em 3 motoristas para 15 moleques irem ao cinema ou coisa parecida, era comum alguém dizer a um colega desavisado, “se você está à procura de adrenalina e fortes emoções, vai com o Pilha”.

O que fazer para ser respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis

17 de julho de 2010

Super Mario Bros, Caverna do Dragão, carrinho de controle remoto, Banco Imobiliário, arremesso de papel higiênico pela janela, campeonato de arroto. Para um garoto de 12 anos, qualquer coisa – até mesmo fazer o dever de matemática – era mais interessante do que ficar segurando um calhamaço de papel cheio de letrinhas miúdas. E comigo não foi diferente. A essa altura você já deve estar se perguntando como pode um dever de matemática ser mais interessante do que ler. Pois veja que ao acabar o dever de matemática, eu estaria liberado para brincar, mas ao acabar a leitura, eu estaria liberado para fazer o dever de matemática.

Com o passar dos anos, o meu gosto pela leitura foi decaindo (se é que é possível decair algo que já está totalmente caído) à medida que os professores de português e literatura insistiam em nos enfiar goela abaixo escritores ainda mais chatos e complicados do que aqueles que nos foram apresentados sem sucesso na quinta série. Nunca me esquecerei de “Iracema”, livro de José de Alencar. Cada frase era um sofrimento, cada parágrafo uma tortura, cada página uma eternidade e cada capítulo eu não sei dizer, pois nunca cheguei ao fim do primeiro.

Vim de uma infância pré-reuripotteriana. A falta de um livro febril entre os garotos da minha idade pode ter contribuído para o meu gosto tardio pela leitura, que só veio mesmo quando eu já estava no fim da faculdade de administração. Cheguei a ter um namoro intenso e doentio com a leitura, mas foi só um namorico de verão. Mal durou três meses.

Tudo por causa de uma ideia que me veio à cabeça numa manhã de domingo: cientistas renomados são contratados pelo Vaticano para executar um serviço complexo e revolucionário capaz de mudar o mundo. Eu adoraria contar mais detalhes do enredo, mas não posso correr esse risco. Vai que um dia, quando eu estiver batendo botas, com a visão turva e a fala embargada, eu volte a achar a história genial e tenha vontade de enfim publicá-la? A ideia pode até ser medíocre, mas é minha e eu não dou pra ninguém.

Não sabia nem por onde começar, precisava de ajuda. Tomei coragem e liguei para um amigo da minha mãe que tinha mais de cinco romances nas costas. Ele me recebeu em sua casa num sábado chuvoso, às quatro horas da tarde. Fomos até à cozinha e ele me serviu um copo de suco de caju. Não fiquei irritado com as formigas que corriam feito loucas dentro do açucareiro, acontece nas melhores famílias, eu só me irritei quando ele disse que as formigas faziam bem aos olhos, que era pra eu não me preocupar se por ventura ingerisse uma ou outra. Como se aquela piada idiota já não tivesse sido feita por todas as avós do mundo.

Contei a ele as minúcias da história de ficcção científica e perguntei o que eu precisava fazer para escrever um bom romance, que fosse respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis. Ele foi firme e direto.

– Você precisa de três coisas, meu filho. Primeira coisa, escrever todo santo dia. Mas não basta escrever um poema, uma letra de música ou uma crônica, você precisa trabalhar todos os dias na porcaria do romance. Que seja uma única linha, mas tem que ser todo dia. Segunda coisa, ter sempre a mão um caderninho e uma caneta para fazer anotações. Não importa o lugar que você esteja, tem que ter o caderninho e a caneta enfiados no bolso traseiro da calça. Terceira coisa, você precisa ler muito, o tempo todo, sem parar.

– Mas você gostou da minha história?

– Pouco importa a história, garoto. A história é o de menos. O segredo está na maneira pela qual ela é narrada.

– Não vou ficar chateado se você dizer que não gostou.

– Com mil demônios, garoto, pare de chorar. O que eu estou querendo dizer é que uma ideia não é nada, porra nenhuma, zilch. A principal diferença entre uma pessoa de sucesso e uma pessoa medíocre é que a pessoa de sucesso coloca a ideia em prática. Tá cheio de cretino por aí com ótimas ideias.

Ele disse que ia ao banheiro e voltou com mais de dez livros. Jack London, Oscar Wilde, Juan Rulfo, Kafka, Poe, José Saramago, Tchekhov, entre outros.

– Acho que isso aqui está bom para você começar – ele disse.

– Muito obrigado pela sua ajuda. Gostaria de fazer uma última pergunta antes de ir. Ontem eu li cerca de dez páginas do seu último livro e fiquei impressionado. De onde você tira tanta inspiração?

Ele me olhou com desprezo. Fiquei assustado. Nunca o tinha visto daquele jeito

– Meu jovem, entenda de uma vez por todas. Inspiração é a puta que pariu. Ler é suor, é ralação.

– Eu acho que já li isso num livro. Dizia que escrever é 99% transpiração e 1% inspiração.

– Pois saiba que o autor deste livro é um idiota. Escrever é 100% transpiração!

O que deveria ser um estímulo para o meu ambicioso projeto, acabou sendo um balde de água fria. Mas ainda assim, conforme eu mencionei no início desse texto, passei quase três meses lendo e escrevendo de forma frenética. Mas foi justamente a leitura, ou seja, a descoberta dos clássicos da literatura que me fez perceber que eu nunca escreveria como aqueles caras, e para piorar, me dei conta de que a minha história aparentemente sensacional, para não dizer genial, era uma merda. Abandonei a escrita, abandonei a leitura, coloquei um meião e fui jogar futebol. Cheguei em casa exausto, tomei banho e liguei a TV. Foda-se a leitura, eu pensei. Isso é coisa de velho. Meus amigos não liam, ninguém lia. Não tenho culpa se eu nasci na geração errada.

Quase dez anos depois, sou tomado por uma nova ideia, quase tão ruim quanto à primeira, mas não desisto.

Quer dizer, pelo menos por enquanto.

Obs.: Este texto transita constantemente entre os campos da ficção e o da não-ficção.

A história do alho que tinha uma cara

31 de agosto de 2009

Preste bastante atenção na imagem à esquerda:

Você está vendo uma plataforma com uma bandeirinha, no alto da figura? Pois então, esta plataforma na verdade é uma cesta, de onde os tripulantes das caravelas olhavam o horizonte em busca de sinais de terra. Ninguém queria ficar nessa pequena cesta porque era o ponto da embarcação que mais chacoalhava. Tente imaginar como deveria ser com as tempestades em alto mar.

Então alguém teve a brilhante ideia de deixar os marinheiros presos na cestinha (sem o direito de sair) por vários dias seguidos, como forma de castigo, criando assim, uma segunda finalidade para o ponto mais alto da embarcação. O cara voltava passando malíssimo, vomitando pelos cantos e nunca mais iria desobedecer o seu superior, pelo menos até chegar em terra firme.

Essa pequena cesta tinha um nome. E o seu nome era caralho.

Com isso, podemos concluir que um subordinado do Pedro Álvares Cabral avistou o Brasil pela primeira vez sentado num caralho. Ou melhor, dentro de um caralho. Ou seria em cima de um caralho? E se não bastasse isso, Brasil vem de pau-brasil e caravela vem da palavra carvalho.

Se você não gostou desse texto, “vai pro caralho”.