Archive for the ‘recordações’ Category

Uma odisseia no Detran

18 de julho de 2011

Os cariocas reclamam muito da Lei Seca, da vistoria anual de seus carros, do mau tempo, de uma semana improdutiva jogada no lixo, mas creio que todos – lá no fundo de suas almas penadas – são favoráveis a essas questões. Por mais que sejam desconfortáveis, constituem o chamado mal necessário. É como tomar um gol do time adversário, virar a partida para 2 a 1 e levantar a taça. É como fazer uma caminhada de três horas e meia na mata fechada, com bolha no pé, filho de treze anos chorando aos berros pedindo colo, formigas criminosas subindo pela sua meia soquete – aliás, que ideia de girico caminhar na mata de meia soquete -, teias de aranha grudando no seu braço e a fome te deixando com dor de cabeça, mas depois de tudo isso, deslumbrar uma cachoeira paradisíaca com água cristalina.

Foi com esse sentimento que eu peguei o meu carro às 15 horas de uma quarta-feira e me dirigi (literalmente) até o posto do Largo do Machado. Já no meio do trajeto, recebo uma ligação da moça que trabalha comigo. Foi ela quem passou a relação de todas as multas a serem pagas e marcou a vistoria.

– Paulo, apareceu mais uma multa no sistema. Como ela só vence em setembro, pensei que não precisava pagar antes dessa vistoria. Mas acabei de falar com uma pessoa do Detran. Se você não quitar essa multa agora, será preciso voltar lá num outro dia só para pegar o certificado.

Sorte que eu estava com o papel da multa na minha mochila. Em vez de continuar pela Voluntários da Pátria, deu tempo de dobrar à esquerda visando o Itaú do Humaitá. Uma fila absurda e, pra piorar, o livro que eu estava lendo ficou no carro. Era um infeliz para atender o povão e outro infeliz para atender a velharia. Ao dizer infeliz, estou querendo dizer que os dois funcionários provavelmente estavam tristes porque não haviam outros para dividir o grande volume de trabalho com eles. E não porque são medíocres ou exercem um trabalho indigno. Muito pelo contrário. Lidar com somas de dinheiro às vezes astronômicas diante de pessoas insanas não é para qualquer um. Isso sem contar que digitam no teclado com a mesma velocidade do Cazé Peçanha no extinto programa Teleguiado, da MTV. Para ilustrar o meu pensamento, clique  no link ao lado e veja, mais precisamente aos 00:53 de vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=uP061WtlPsk.

Confesso que eu já acreditei que ele digitava de verdade o nome das músicas das pessoas que ligavam (não existia internet naquela época). Há alguns anos o encontrei na Livraria Cultura de São Paulo, compenetrado, passeando por livros de arte importados. Me arrependo de não ter dito que era fã do Teleguiado e que ele era o melhor VJ da história daquela emissora. Talvez não o mais engraçado, vide Adnet, mas sem dúvida o mais culto e inteligente.

Apesar da demora no banco, me atrasei apenas 7 minutos. Fui designado ao vistoriômetro de número 4.  Lanternas, setas fronteiras, traseiras, esquerdas e direitas, abertura de capô, farol baixo, farol alto, limpador de parabrisas, raspadinha de chassi. Tudo certo. Eu havia me preparado para aquele dia como um mecânico que se prepara para entregar o carro de passeio do Ayrton Senna.

– Farol de neblina?

Aquele nome não me era estranho.

– Farol de milha? – continuou o vistoriador.

Também já tinha ouvido falar em farol de milha. Eu já desconfiava que farol de milha e farol de neblina eram a mesma coisa, mas agora eu tinha certeza.

– Acho que o meu carro não tem farol de milha – disse timidamente.

– Tem sim.

Comecei a ficar nervoso, mas não transpareci. A julgar pelo modo que ele me respondeu e pelo jeito desleixado que ele esperava a porcaria do farol de milha, provavelmente eu seria reprovado no teste. Apertei tudo que é botão, o limpador traseiro começou a operar no seco, o da frente em todas as velocidades da música do créu, de 1 a 5, também a seco,  liguei pisca alerta e depois desliguei imediatamente pro cara não achar que eu era maluco, dei umas três pressionadas no farol alto, não para ele achar que eu era maluco, mas de propósito mesmo, para descontar a minha raiva. Estava mais perdido que daltônico diante de um pote de jujubas. Perguntei baixinho para um outro vistoriador que estava sentado ali perto numa mesa plástica, dessas de boteco, “você sabe onde fica o farol de milha desse carro?”. Ele balançou discretamente a cabeça e fez um beicinho. Não estava a fim de ajudar. Até que uma pessoa aleatória, que certamente ouviu a minha pergunta, se aproximou do meu carro e apertou um botão escondido em cima da saída lateral esquerda do ar condicionado. Mais precisamente, ali, na minha fuça. Ficava entre o retrovisor do motorista ignorante e o volante. Nunca vou me esquecer daquele símbolo estranho, que parece a espinha de um peixe de desenho animado. Na verdade, o cara não chegou a apertar, apenas indicou com o dedo indicador e continuou andando. Provavelmente  era um daqueles anjos de filme de sessão da tarde que salvam o protagonista num momento difícil.

– Beleza. Agora acelera o carro e procure se manter naquela velocidade que aparece na tela do computador.

A espera de quase uma hora para receber o glorioso e cobiçado certificado de registro e licenciamento 2011 tinha tudo para ser uma chatice sem tamanho. As outras pessoas na sala de espera ao ar livre que o digam. Bufavam, gesticulavam e  reclamavam com os funcionários. Não os culpo. Provavelmente agiria da mesma forma se eu não tivesse um ótimo livro para me distrair. O mesmo que eu havia esquecido na fila do banco. Quando fui chamado, tive vontade de dizer “só um minuto, faltam 2 páginas para acabar o conto”. Saí de lá pensando em milhas acumuladas para uma viagem de avião, pamonha, milho verde e no jogo Enduro, do Atari, no qual a fase mais difícl era aquela em que o carros apareciam do nada e era quase impossível desviar. Era a fase da neblina.

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Uma odisseia na prova de auto escola

17 de maio de 2011

Entrei no carro. Bati a porta. Endireitei os retrovisores com a mesma destreza que eu ajeitava os pedestais de prato da bateria na época em que me apresentava ao vivo frequentemente. Já vi gravado em fita e tudo. Isso mesmo, fita cassete. Faz muito tempo. Termina a música, eu me levanto, mexo 2 milímetros na altura do prato de ataque Zildjian e me sento novamente no banquinho. Dou uma nova olhada, mas não gosto da posição do prato, que parecia perfeita quando eu estava em pé fazendo os ajustes.  Me levanto novamente e mexo, dessa vez, 1 milímetro e meio. Vale dizer que uma banda inteira composta por dois guitarristas, uma vocalista, uma percussionista e um baixista espera pacientemente pelos meus caprichos bizarros. Felizmente estes ajustes cirúrgicos se perderam completamente com o passar dos anos. O mesmo vale para os retrovisores.

Liberei o freio de mão. Liguei o carro. Engatei a ré. Percorri um percurso aproximado de 0, 0003 quilômetros.

– Para! Para!

(agora o verbo “parar” no presente da terceira pessoa do singular não leva mais acento)

Olhei indignado para o aplicador da prova.

– O que houve?

– Você esqueceu de botar o cinto. Perdeu 3 pontos.

– Isso quer dizer que…

– Isso mesmo. Você não pode perder mais nenhum ponto.

Eu ainda tinha que entrar na porcaria da vaga, sair com o carro da mesma vaga e dar uma volta no percurso oval com a presença de motoristas comuns, quer dizer, já gabaritados pelo Detran. E sem cometer mais nenhuma falta. O carro chacoalhava feito uma máquina de lavar. O meu pé direito parecia meio dormente por causa do nervosismo. Não sei bem o que houve. Só sei que lá pelas tantas, ainda tentando manobrar na vaga, a máquina de lavar pifou. Alguém tirou da tomada ou a luz do prédio acabou. Vá saber.

Olhei para o aplicador da prova com a mesma cara do Gato de Botas do Shrek.

– Liga logo esse carro, antes que algum colega perceba.

Tecnicamente eu tinha 5 pontos.

– Muito obrig…

– Se concentra aí garoto. Mais meio ponto e eu te reprovo. Não fala nada. E dá um jeito nesse carro. Balança mais que uma charrete guiada por um asno (na verdade ele não disse exatamente isso, mas achei que tornaria o texto mais interessante).

Não cometi mais nenhuma falta. Fui aprovado com (duvidoso) louvor. Demorei cerca de um ano para aprender a dirigir, ou melhor, deixar de ser uma ameaça constante para motoqueiros, caminhoneiros, motoristas de ônibus, pedestres e quem mais estivesse no meu caminho. Aproveito a oportunidade para agradecer a paciência de todos os amigos que estiveram comigo nesta difícil jornada iniciante, seja no banco carona ou no banco traseiro. Não sei o que era pior. Ver o perigo de camarote pelo banco da frente ou ficar no banco de trás e ver o perigo com menos exatidão. Pedidos inusitados como este eram comuns: “vê aí pra mim se eu posso mudar de faixa”. Este pedido assustava ainda mais os meus amigos. Eu dizia que era impossível olhar para o retrovisor e para a frente ao mesmo tempo. Quando os amigos se reuniam em 3 motoristas para 15 moleques irem ao cinema ou coisa parecida, era comum alguém dizer a um colega desavisado, “se você está à procura de adrenalina e fortes emoções, vai com o Pilha”.

Uma Odisseia em Seattle com o Bad Religion

17 de fevereiro de 2011

As pessoas se empurravam como se fossem feitas de borracha. Outras navegavam por cima da multidão como se estivessem num caiaque, navegando em mar agitado. Eu ficava na defensiva, imóvel, tentando manter os pés fincados no chão. Todo o cuidado era pouco para não entrar num redemoinho e ser lançado para longe.

***

Era o meu último dia em Vancouver. Depois de jantar com um casal de amigos, fui sozinho a um bar irlandês que tinha conhecido rapidamente na noite anterior. Não estava com paciência para tomar cerveja e sorvi três maravilhosos Captain´n Coke, que me deixaram um tanto quanto trôpego no caminho de volta ao albergue. Tinha que acordar muito cedo no dia seguinte para pegar um ônibus para Seattle, o último destino da viagem. Mas quase chegando ao meu dormitório, eu avistei um cyber café ao lado de uma pizzaria e achei que valia a pena comer uma fatia de pizza e checar o e-mail. Na verdade, só valia a pena mesmo a fatia de pizza. Checar o e-mail às três da madrugada, sendo que eu tinha que fazer a mala e estar na rodoviária às nove, era uma ideia estúpida e irresponsável. Eu ia acabar olhando facebook, globoesporte.com, enfim, gastar um tempo precioso que eu não tinha e se não bastasse isso, não teria condições de responder os e-mails porque estava muito bêbado para isso. Então, além de não responder nenhum e-mail pendente, eu entrei também na The Bad Religion Page, o maior site dedicado ao grupo de punk rock Bad Religion na internet.

Antes de embarcar para San Francisco, a primeira cidade que eu visitei na viagem (clique aqui e leia o texto que eu fiz dedicado a San Francisco), eu criei um novo tópico no fórum desse site no qual eu dizia que estaria no show deles em Seattle, no dia 17 de novembro. Como as pessoas não me conheciam pessoalmente, não obstante os meus covers acústicos de Bad Religion que eu posto no YouTube desde 2007, eu disse que estaria usando a camisa de futebol da Croácia, que é muito chamativa com as suas cores branca e vermelha no modo xadrez. Por mais que eles lembrassem do meu rosto dos vídeos, eu seria só mais um na multidão, quase impossível de ser localizado à distância.

Uma hora antes de eu entrar naquele cyber café, um americano do Texas postou no tal fórum criado por mim que o Greg Graffin, vocalista da banda, iria autografar o seu último livro num outro local, um pouco antes do show. Aquela minha ida ao cyber café, antes uma irresponsabilidade sem tamanho acabou se tornando algo heróico. No dia seguinte eu dificilmente entraria na internet e ficaria sem saber da sessão de autógrafos. Eu iria chegar em Seattle na parte da tarde e ficaria passeando até a hora do show, marcado para as 20 horas.

Todos os passageiros do ônibus tiveram que descer na divisa com os Estados Unidos. Fiquei intrigado com um enorme aviso numa parede enquanto aguardava a minha vez. “We do not accept canadian money here”. O que me espantou não foi o fato deles não aceitarem o dinheiro canadense, isso era óbvio, mas eu não imaginava que eles iriam chamar de “canadian money”. O nome da moeda é “Canadian dollar”. Eu posso estar errado, mas achei um certo descaso chamar de “dinheiro canadense”, como se isso fosse algo inferior. “Não aceitamos essa merda aqui”. Foi o que soou pra mim ao ler o aviso.

Sabendo que só teria algumas horas daquela quarta e o dia todo de quinta para conhecer a cidade, me hospedei num hotel no coração de Seattle.

A sessão de autógrafos estava marcada para às 18 horas e acabou que deu tempo de passear um pouco a pé pelas redondezas. Eu pensava que o Greg Graffin estaria numa micro bancada esperando meia dúzia de fãs, o que me levou a chegar meia hora atrasado. O nome do lugar era Town Hall. Não parecia nem um pouco com uma livraria. Tinha um cara na porta que me disse que a entrada custava cinco dólares. Sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, paguei a quantia solicitada e entrei. Deviam ter umas duzentas pessoas. Todas elas sentadas, em silêncio, ouvindo atentamente o vocalista do Bad Religion. Ao lado dele, também de microfone em punho, estava o co-autor do livro, que fazia o papel de entrevistador. Praticamente todos os assentos estavam tomados, sobretudo aqueles mais próximos ao palco. Mas como eu estava sozinho e as pessoas sempre deixam um ou outro espaço vazio entre elas (adquiri essa experiência de tanto ir ao cinema desacompanhado), procurei um assento vago nas três primeiras filas e, como de costume, encontrei. Perguntei a uma linda menina se o lugar ao lado dela estava vago. Me olhou com cara de poucos amigos, mas fez que sim. Ela estava séria, compenetrada e fazia anotações num caderno. Provavelmente era fã do Greg Graffin professor de biologia na UCLA e não fã do Greg Graffin vocalista de uma banda de punk rock. Seja lá o que for, nunca vou saber se ela realmente conhecia as músicas aceleradas, curtas e melódicas escritas por aquele homem semi-careca.

Graffin andava de um lado para o outro enquanto falava sobre religião, fé, sociedade, sua vida pessoal e questões biológicas mais técnicas, aliás, super técnicas. Ele basicamente fez um apanhado geral do livro que eu tinha acabado de ler na viagem de ônibus para Seattle.

Depois de mais uma resposta eloqüente do vocalista do Bad Religion, o entrevistador e co-autor comunica que a palestra está chegando ao fim, mas antes, eles iam abrir para algumas perguntas da platéia. A produção do evento tinha posicionado dois microfones, um de cada lado do palco. Quem quisesse fazer perguntas ao Greg, deveria ir até um dos pedestais e mandar ver.

Quando eu soube dessa palestra, quer dizer, eu pensava que era apenas uma sessão de autógrafos comum, daquelas que a pessoa dá o livro para o autor assinar, troca meia dúzia de palavras com ele, bebe um vinho de quinta categoria e vai embora. Enfim, quando eu fiquei sabendo desse evento pelo fórum que eu havia criado na “The Bad Religion Page”, eu cogitei pela primeira vez perguntar ao Greg se eu poderia cantar uma música com a banda no palco. Por mais insano que aquilo pudesse parecer. Desanimei um pouco quando vi aquela multidão, mas continuava com o mesmo plano na cabeça. É claro que eu não iria perguntar naquele auditório lotado, na frente de todo mundo. Isso estava fora de questão.

As perguntas da platéia iam se sucedendo e de repente uma voz interior muito poderosa começou a falar comigo e a me fazer uma série de perguntas, ameaças e ofensas morais.

– Você quer mesmo cantar com a banda? Sim ou não?

– Sim – eu respondi.

– Então não deixe para perguntar quando o Greg estiver assinando o seu livro. Ele provavelmente vai dizer não. Você tem que perguntar agora, nesse segundo, na frente de todo mundo.

– Você tá louco, não vou fazer isso – retruquei, com desdém.

– Bom, o recado está dado.

Uma fila de duas pessoas se formou atrás de cada um dos microfones. A sessão de perguntas da plateia transcorria sem grandes emoções até uma menina perguntar alguma coisa sobre a educação dos filhos dele. A resposta veio num tom ríspido e seco. “Bom, acho que da educação dos meus filhos cuido eu”. A menina ficou visivelmente sentida e ele tratou logo de consertar a frase infeliz, se desculpando e amaciando as suas palavras. O professor punk ateu ainda aproveitou para dizer que não tem mesmo muito talento ao dialogar com as pessoas. Disse que volta e meia acaba dizendo alguma coisa ríspida contra a sua vontade.

– Está bem, você venceu – eu disse, para a minha voz interior.

Levantei da cadeira e fui até o final de uma dass filas. Na minha frente, uma única pessoa.

– Sábia decisão, meu caro. Agora presta atenção numa parada. A escolha da música é crucial. Você precisa pedir uma música curta, que você saiba 500% a letra, que esteja já num tom apropriado para a sua voz e não pode ser muito famosa. Os fãs normalmente preferem escutar os grandes clássicos cantados pelo próprio vocalista da banda.  Não pode ser também uma música que eles nunca tocam ao vivo, pois eles precisaram de ensaio antes do show e isso está fora de questão. Tem que ser uma música freqüente no set list da banda.

– O que você está me dizendo faz todo sentido. Mas não é melhor eu primeiro perguntar se posso cantar com eles? Se ele disser que sim, depois eu decido com a banda qual música eu canto.

– Você está de sacanagem, né? Você acha mesmo que o Greg Graffin vai dizer “está bem, meu filho, qual música você quer cantar?”. Aí você gagueja e responde “vou pensar até a hora do show”. Não, porra. O discurso tem que ser curto, na lata, direto. Não é pra ficar de lenga-lenga. Você precisa ser firme.

Então eu me lembrei do dia 13 de março de 1999. Uma amiga descobriu o hotel que a banda iria se hospedar no Rio e me chamou para ir com ela. Eu recusei num primeiro momento porque achava ridículo essa história de encontrar banda em hotel. Aquilo era coisa de menininha fútil de treze anos e eu já estava quase me formando no colégio. Porém, por mais bizarro e infantil que fosse, era a chance que eu tinha de conseguir um autógrafo de todos os integrantes, fazer um quadro e colocar na parede do meu quarto.

Ficamos esperando algum tempo no saguão do hotel ao lado de cinco ou seis outros fãs e eu não tinha planejado nada de interessante para dizer a eles. Então, quando adentraram o saguão do hotel, fiquei praticamente mudo enquanto o meu encarte do disco solo do vocalista era assinado por todos. Aliás, uma grande mancada minha. O encarte tinha que ser de um dos discos da banda. O meu nervosismo / timidez / falta de planejamento conversativo só foi superado no momento em que eu perguntei ao baixista Jay Bentley e ao vocalista Greg Graffin se era possível eles tocarem a música “Anesthesia” naquela noite. Eu tinha ido ver a banda quatro dias antes em São Paulo e esta canção, de 1990, não estava no repertório. Para o meu espanto, a música foi tocada no show do Rio, mesmo sem fazer parte do set list dos outros shows da turnê do Brasil, conforme eu pude constatar via internet alguns dias depois. Eles tocaram duas vezes em São Paulo, depois foram para Santos, Curitiba e, por fim, Rio.

Anesthesia não é uma música tão famosa quanto American Jesus, Infected, Sorrow, e 21st Century Digital Boy, tem curta duração, o tom é apropriado para a minha voz e eu sabia 500% a letra. Logo, atendia a todos os pré-requisitos estabelecidos pela minha voz interior, que aprovou a canção com louvor segundos antes do meu pequeno discurso:

– I came all the way from Brazil to see you guys up here. I have more than 50 Bad Religion acoustic covers in YouTube, including a duo with Emily Davies.

– Eu a conheço. Qual é a música que vocês fizeram? – ele disse.

– Strange Denial, está no Youtube. Is it possible to sing the song Anesthesia on stage with you guys tonight?

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, só deu tempo dele fazer uma cara de espanto, a plateia riu e inundou o auditório com palmas efusivas. O mais curioso desse episódio é que durante a longa conversa que eu tive com a minha voz interior, nenhuma das partes cogitou que a platéia jogaria ao meu(nosso) favor. E eu acho que foi justamente esta incrível solidariedade internacional que me salvou.

– Se você for ao show com essa camisa e eu conseguir te ver lá na frente, está tudo bem, você pode cantar.

Voltei ao meu lugar. A menina ao meu lado continuava com a cara fechada, agora fazendo par com o seu caderno de anotações.

Fim da sessão de perguntas. Enquanto os fãs formavam uma fila para o Greg autografar, eu fui correndo até o hotel para deixar o meu livro no quarto e pedir um táxi. Eu já tinha comprado o meu ingresso do Brasil pela internet um mês antes, mas nunca se sabe. Se eu já sou normalmente ansioso, tente imaginar como eu estava naquele momento. Levei todo o dinheiro vivo que eu tinha reservado para os últimos dois dias da viagem. Eu não economizaria dinheiro num cambista se alguma coisa desse errado.

Felizmente não foi preciso conversar com nenhum cambista. Apresentei o meu passaporte, eles localizaram o meu nome, recebi o ingresso e entrei. Antes do Bad Religion, duas bandas locais de punk rock iriam tocar cerca de meia hora cada uma. Fui até o bar e pedi uma dose de whisky. Algumas pessoas que estavam na palestra me reconheceram e desejaram sorte na minha empreitada. Fiquei zanzando pelo lugar para matar o tempo até que eu encontrei o tal cara que postou no fórum sobre a sessão de autógrafos do vocalista. Eu disse que se não fosse ele, eu nunca teria sequer a chance de subir naquele palco. Ficamos conversando no bar enquanto a primeira e a segunda banda faziam shows mornos, sem nada de especial. A sua namorada, que quase não abriu a boca e desconhecia Bad Religion por completo, não estava dando conta dos chopps que ele trazia e eu acabei tomando por ela. Duas doses de whisky e três copos caprichados de cerveja depois e eu estava completamente sóbrio. Acho que diante do meu estado de excitação e nervosismo, nem se eu virasse uma garrafa inteira de rum eu ficaria bêbado. Eu poderia ser internado no hospital com parada cardíaca, mas ficaria sóbrio até o momento do piripaque.

– Assim que acabar o segundo show, a gente vai lá pra frente do palco. Eu te ajudo a chegar lá.

– Mas e a sua namorada?

– Não se preocupe, ela vai junto.

– Tem certeza?

– Cara, a gente tem uma missão aqui. Você tem que subir naquele palco.

Com muita dificuldade, a gente chegou perto do palco. Mas ainda tinha muita gente na nossa frente. Era definitivamente impossível seguir em frente.

– Quando começar a primeira música, a gente dá um chega pra lá nessas pessoas e vai pra primeira fila.

– Será? Acho que vai ser meio complicado – eu disse.

O meu novo amigo americano não deixava ninguém passar. Pedia gentilmente para os aventureiros darem a volta pelo outro lado. Alguns insistiam, ele engrossava o tom e eles desistiam. Este roteiro se repetia enquanto as pessoas começavam a empurrar umas às outras com mais força, formando ondas humanas. Pouco antes do início do show eu disse que ele não precisava se preocupar em me levar para a beirinha do palco. Eu tinha uma ideia que supostamente resolveria o problema e felizmente funcionou. Logo na primeira música do show, “Do what you want”, eu tirei a camisa da Croácia (estava com uma camisa branca por baixo, logo, não fiquei sem camisa) e a agitei na direção do vocalista. Ele apontou pra mim e riu. A missão estava cumprida. Eu havia feito a minha parte com a grande ajuda do americano, que achou melhor ir para longe do palco com medo da sua namorada ser pisoteada pela multidão.

Assim que acabou a décima sexta música do show, Ten in 2010, do disco The Gray Race, Graffin começou o discurso que eu esperava ansiosamente.

– A banda não sabe disso ainda, mas aconteceu uma coisa hoje na palestra sobre o meu livro. Um garoto brasileiro me perguntou se poderia cantar uma música e eu disse que sim. Apesar de eu ser um cara que cumpre promessas, eu preciso saber da opinião de vocês. E então, quem acha que o brasileiro deve cantar levanta a mão.

Olhei pra trás e vi um mar de pessoas com os braços levantados. A vontade de urinar que me perseguia de uma maneira indescritível desde o início do show de repente desapareceu. Eu nunca segurei tanto o xixi como naquele dia.

– Quem não quer que o brasileiro cante?

Poucas pessoas levantaram a mão.

– Ok, you win! Come on up!

“Esse cara sou eu, me ajudem a sair daqui”, eu dizia sem parar, esprimido lá na frente. As pessoas acreditaram em mim e um garoto fez o famoso “pezinho” para eu escalar a grade de contenção. Uma vez no mata-burro, espaço entre o público e o palco, perguntei ao segurança “como proceder?”, ele apontou para o lado esquerdo do palco. Subi sem dificuldade. O que aconteceu no palco pode ser visto no vídeo abaixo.

Saí do palco arrasado. Tudo bem que eu estava nervoso, que era a realização de um sonho, que a platéia era enorme, mas ainda assim, eu não podia ter esquecido um pedaço da letra. Os fãs vieram falar comigo em estado de êxtase, muitos pediram para tirar fotos e ganhei até cerveja de graça no bar. Mas nada disso aliviava a minha frustração. Quase não dormi esse dia por causa dessa maldita letra. Levei uma semana para me desculpar pelo erro e finalmente curtir aquele momento único que vou levar para o resto da vida.

A arte de perder as coisas

17 de agosto de 2010

Tatiei os bolsos da calça. Moedas, carteira e passaporte. Tatiei de novo. Moedas, carteira e passaporte. Faltava algo muito importante, mas eu precisava ter certeza. Enfiei a mão nos bolsos e retirei os mesmos utensílios que eu havia tateado antes. Senti a barriga congelar. Olhei novamente para as minhas mãos e já não tinha mais dúvidas, era a visão do inferno.

Depois da jaqueta, do MP3 player e da chave do cadeado da mala, perder a câmera digital Sony Cyber-shot 14 pixels que eu havia comprado três dias antes em Los Angeles era inaceitável. Era vergonhoso. Aquilo não podia estar acontecendo comigo.

Entre a jaqueta bege, o MP3 player e a chave do cadeado, a perda menos significante foi a chave do cadeado. Assim que eu cheguei ao albergue que eu estava hospedado em Las Vegas com mais dois amigos, perguntei na recepção se eles tinham alguma ferramenta capaz de arrebentar o cadeado da minha mala. Poderia perfeitamente ter deixado a mala sem proteção, mas como haviam outros hóspedes no nosso quarto, achei que era melhor não arriscar. O homem da recepção me emprestou um alicate gigante, da mesma altura de uma criança de quatro anos. Quebrei o cadeado sem qualquer esforço e comprei um novo, ali mesmo na recepção, por quatro dólares.

Sabia perfeitamente onde eu tinha perdido a câmera. Só não sabia se ela ainda estaria no mesmo lugar. Levando em consideração o intenso movimento da loja e a distância que eu teria que retroceder, as minhas chances eram bem pequenas.

Antes de chegar em Las Vegas, a gente dormiu duas noites num outro albergue, localizado em Santa Monica, Los Angeles. Depois de tomar alguns Jack and Coke (Jack Daniels + Coca-Cola) no ótimo bar Hooters, fechamos uma das noites jogando sinuca na sala comunal do albergue. Dei duas ou três belas tacadas, mas todas as outras foram sofríveis. Foi só na manhã do dia seguinte que eu percebi que tinha deixado o casaco em uma das cadeiras que rodeavam a mesa de sinuca. Cheguei esbaforido no local e o casaco não estava mais lá. Fui até à recepção e conversei com duas pessoas diferentes. O único casaco que eles tinham no “lost and found” eu não aceitaria nem de graça. Era pequeno,encardido e cafona.

Enquanto corria feito um louco pelo Ceasars Palace, eu pensava nas 133 fotos que eu havia tirado até então. A grande maioria era dispensável, mas eu já tinha conseguido juntar uma dezena de pérolas e três ou quatro diamantes.

Por mais que a jaqueta tenha sido mais cara que o MP3 player, aquele pequeno aparelho preto da Samsung modelo YP-P3 era a maior perda da viagem até o momento. Nunca vou esquecer das duas vezes que ele entrou em coma. Na primeira vez, ficou apagado por uma hora e na segunda, ficou totalmente inoperante por quatro dias. Eu já tinha até consultado uma loja, mas não fiquei satisfeito com os modelos pesados e robustos que me foram apresentados. Não simpatizo nenhum pouco com iPod, pelo menos até o momento. Durante esses quatros dias de coma, eu tentei diversas vezes fazer o aparelho ressuscitar. Após o banho, depois do jantar, na hora de levantar. Até que numa dessas tentativas, ele resolveu ligar novamente. Fiquei muito feliz. Foi um troço muito bacana mesmo. E o pior é que a culpa era minha. Tinha baixado um álbum do Morrissey na internet que estava corrompido e foi justamente na tentativa de ler essas canções que ele entrou em coma duas vezes. Mas assim que ele ligou depois de quatro dias morto, eu tratei de apagar o álbum inteiro, até mesmo as canções que tocavam, só para garantir que não teria mais qualquer tipo de problema.

Foi naquele pequeno aparelho que eu escutei a primeira mixagem do meu disco. Foi com ele que eu gravei algumas melodias que mais tarde se transformariam em canções que estão no meu primeiro disco. Foi com ele que eu gravei novas melodias que nunca mais poderão ser recuperadas. Além de tocador de MP3 e pen drive, ele também era um gravador, um animal de estimação, um filho, uma vida.

Entrei na Apple Store sem esperanças. O computador que eu havia usado para checar o meu e-mail era o mais visível de todos, o mais perto da entrada. Olhei para o Mac em questão e fiquei atônito. Não sei se eu merecia aquilo. Pensando melhor, eu certamente não merecia. Ainda mais depois das três perdas em apenas quatro dias de viagem.

Peguei a câmera, revi algumas fotos, a coloquei no bolso e surgiu uma nova preocupação. Mal deu tempo de curtir aquele momento de êxtase. Estava sem celular (deixei no Rio) e os meus amigos não sabiam que eu tinha ido procurar a câmera. Esqueci de dizer a eles. Precisava encontrá-los logo ou então só os veria no dia seguinte de manhã dormindo no quarto. Então eu saí correndo pelo Ceasars Palace, novamente feito um louco.

O que fazer para ser respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis

17 de julho de 2010

Super Mario Bros, Caverna do Dragão, carrinho de controle remoto, Banco Imobiliário, arremesso de papel higiênico pela janela, campeonato de arroto. Para um garoto de 12 anos, qualquer coisa – até mesmo fazer o dever de matemática – era mais interessante do que ficar segurando um calhamaço de papel cheio de letrinhas miúdas. E comigo não foi diferente. A essa altura você já deve estar se perguntando como pode um dever de matemática ser mais interessante do que ler. Pois veja que ao acabar o dever de matemática, eu estaria liberado para brincar, mas ao acabar a leitura, eu estaria liberado para fazer o dever de matemática.

Com o passar dos anos, o meu gosto pela leitura foi decaindo (se é que é possível decair algo que já está totalmente caído) à medida que os professores de português e literatura insistiam em nos enfiar goela abaixo escritores ainda mais chatos e complicados do que aqueles que nos foram apresentados sem sucesso na quinta série. Nunca me esquecerei de “Iracema”, livro de José de Alencar. Cada frase era um sofrimento, cada parágrafo uma tortura, cada página uma eternidade e cada capítulo eu não sei dizer, pois nunca cheguei ao fim do primeiro.

Vim de uma infância pré-reuripotteriana. A falta de um livro febril entre os garotos da minha idade pode ter contribuído para o meu gosto tardio pela leitura, que só veio mesmo quando eu já estava no fim da faculdade de administração. Cheguei a ter um namoro intenso e doentio com a leitura, mas foi só um namorico de verão. Mal durou três meses.

Tudo por causa de uma ideia que me veio à cabeça numa manhã de domingo: cientistas renomados são contratados pelo Vaticano para executar um serviço complexo e revolucionário capaz de mudar o mundo. Eu adoraria contar mais detalhes do enredo, mas não posso correr esse risco. Vai que um dia, quando eu estiver batendo botas, com a visão turva e a fala embargada, eu volte a achar a história genial e tenha vontade de enfim publicá-la? A ideia pode até ser medíocre, mas é minha e eu não dou pra ninguém.

Não sabia nem por onde começar, precisava de ajuda. Tomei coragem e liguei para um amigo da minha mãe que tinha mais de cinco romances nas costas. Ele me recebeu em sua casa num sábado chuvoso, às quatro horas da tarde. Fomos até à cozinha e ele me serviu um copo de suco de caju. Não fiquei irritado com as formigas que corriam feito loucas dentro do açucareiro, acontece nas melhores famílias, eu só me irritei quando ele disse que as formigas faziam bem aos olhos, que era pra eu não me preocupar se por ventura ingerisse uma ou outra. Como se aquela piada idiota já não tivesse sido feita por todas as avós do mundo.

Contei a ele as minúcias da história de ficcção científica e perguntei o que eu precisava fazer para escrever um bom romance, que fosse respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis. Ele foi firme e direto.

– Você precisa de três coisas, meu filho. Primeira coisa, escrever todo santo dia. Mas não basta escrever um poema, uma letra de música ou uma crônica, você precisa trabalhar todos os dias na porcaria do romance. Que seja uma única linha, mas tem que ser todo dia. Segunda coisa, ter sempre a mão um caderninho e uma caneta para fazer anotações. Não importa o lugar que você esteja, tem que ter o caderninho e a caneta enfiados no bolso traseiro da calça. Terceira coisa, você precisa ler muito, o tempo todo, sem parar.

– Mas você gostou da minha história?

– Pouco importa a história, garoto. A história é o de menos. O segredo está na maneira pela qual ela é narrada.

– Não vou ficar chateado se você dizer que não gostou.

– Com mil demônios, garoto, pare de chorar. O que eu estou querendo dizer é que uma ideia não é nada, porra nenhuma, zilch. A principal diferença entre uma pessoa de sucesso e uma pessoa medíocre é que a pessoa de sucesso coloca a ideia em prática. Tá cheio de cretino por aí com ótimas ideias.

Ele disse que ia ao banheiro e voltou com mais de dez livros. Jack London, Oscar Wilde, Juan Rulfo, Kafka, Poe, José Saramago, Tchekhov, entre outros.

– Acho que isso aqui está bom para você começar – ele disse.

– Muito obrigado pela sua ajuda. Gostaria de fazer uma última pergunta antes de ir. Ontem eu li cerca de dez páginas do seu último livro e fiquei impressionado. De onde você tira tanta inspiração?

Ele me olhou com desprezo. Fiquei assustado. Nunca o tinha visto daquele jeito

– Meu jovem, entenda de uma vez por todas. Inspiração é a puta que pariu. Ler é suor, é ralação.

– Eu acho que já li isso num livro. Dizia que escrever é 99% transpiração e 1% inspiração.

– Pois saiba que o autor deste livro é um idiota. Escrever é 100% transpiração!

O que deveria ser um estímulo para o meu ambicioso projeto, acabou sendo um balde de água fria. Mas ainda assim, conforme eu mencionei no início desse texto, passei quase três meses lendo e escrevendo de forma frenética. Mas foi justamente a leitura, ou seja, a descoberta dos clássicos da literatura que me fez perceber que eu nunca escreveria como aqueles caras, e para piorar, me dei conta de que a minha história aparentemente sensacional, para não dizer genial, era uma merda. Abandonei a escrita, abandonei a leitura, coloquei um meião e fui jogar futebol. Cheguei em casa exausto, tomei banho e liguei a TV. Foda-se a leitura, eu pensei. Isso é coisa de velho. Meus amigos não liam, ninguém lia. Não tenho culpa se eu nasci na geração errada.

Quase dez anos depois, sou tomado por uma nova ideia, quase tão ruim quanto à primeira, mas não desisto.

Quer dizer, pelo menos por enquanto.

Obs.: Este texto transita constantemente entre os campos da ficção e o da não-ficção.

Tudo tem um preço

14 de novembro de 2008

– Tudo tem um preço, nada é de graça nesse mundo – disse um dos primeiros professores que tive na PUC, em sua primeira aula, com a ajuda de dezenas de exemplos.Eu, inocentemente, me vi no direito de questioná-lo. No momento em que estendi o braço, ele me lançou um olhar de desdém, do tipo “olha lá o que você vai dizer garoto, não vai me deixar numa sinuca de bico na frente da turma toda, não é?”. A minha teimosia no entanto falou mais alto:

– O ar que a gente respira é totalmente de graça, professor.

Agora ele fez uma cara do tipo “tu vai ver filho da puta, tu perdeu a noção do perigo, isso vai ter troco”. Disse que o meu pensamento tinha algum sentido e mudou de assunto rapidamente.

Ele então ficou no meu pé o semestre todo e eu acabei reprovado na matéria por três décimos. Fui bancar o engraçadinho e tomei na cabeça. Sorte que não o encontrei depois do resultado final, pois ele provavelmente iria dizer:

– Eu não te falei, meu filho? Tudo tem um preço.