Archive for the ‘Sem-categoria’ Category

Matéria do meu segundo disco no G1

1 de fevereiro de 2014

Clique no link ao lado e confira a matéria que saiu no G1 sobre o meu segundo disco. http://g1.globo.com/musica/noticia/2013/12/paulo-pilha-canta-na-pele-de-golpista-namorada-furiosa-e-zagueiro-expulso.html

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Uma história escrita por 30 pessoas diferentes

2 de julho de 2012

Todo dia 2 de cada mês eu escrevo para o Blog das 30 Pessoas. Normalmente não existe uma sincronia entre os textos publicados e cada um escreve sobre o tema que quiser. Nesse mês de julho no entanto, o idealizador do blog teve uma ideia brilhante: escrever uma única história com a ajuda dos 30 membros do blog. Ele colocou a parte 1 ontem e eu acabei de publicar a parte 2. Que venham as próximas partes! Clique no link e confira o andamento da história: http://blogdas30pessoas.blogspot.com.br/

O top 10 da mesmice popular

18 de junho de 2012

(publiquei este artigo no dia 2 de junho de 2012 no blog das 30 pessoas, onde tenho um espaço mensal, sempre no dia 2 de cada mês: http://blogdas30pessoas.blogspot.com.br/ )

Não sou muito de ver televisão. E quando ligo, é para treinar o inglês vendo um pedaço de filme do Telecine. Eu ia falar noticiários, mas parei pra pensar um pouco e me dei conta de que estaria mentindo. Mês passado, numa dessas poucas incursões ao controle remoto, resolvi dar uma chance ao Top 10 (ou seria Top 20?) do TVZ, que apresenta os clipes mais “votados” pelos telespecatadores. Votados está entre aspas porque, na verdade, quem comanda aquilo não é necessariamente os votantes, mas essa discussão fica para um outro post. De todo modo, lá estavam os clipes e as músicas que estão bombando no rádio, nas festas dos pré-adolescentes, nos consultórios dentários, nos iPods coloridos e no aparelho de som turbinado do vizinho. Não digo que as músicas e os clipes sejam ruins, mas parece que existe uma espécie de fórmula de produção para todos esses artistas e acho que é justamente aí que mora o problema.  Não sou tão xiita quanto os metaleiros e adoradores de jazz ou música clássica. Convivo muito bem com Miley Cirus, Madonna, J Lo, Britney Spears, Ke$ha e cia (acho que sei pescar/identificar as melhores músicas e melodias desses artistas e não tenho vergonha disso), mas é muito estranho você assistir 4 ou 5 clipes desses artistas na sequência e ver que quase todos falam de “zoar a noite toda”, “pegação sem compromisso”, e isso sem contar a estrutura das músicas, a ponte para o refrão, a sonoridade, a tomada das câmeras, os olhares, os closes, as roupas.

Mesmo não sendo um super fã de Adele, fiquei extremamente feliz em ver o seu clipe no meio de tanta falta de criatividade e mesmice. O clipe de “Someone Like You” é em preto e branco. Só isso já seria motivo de aplausos. Mas a coisa não para por aí. Ela não está lançando um sorriso plástico para as câmeras como quem pede mais seguidores no twitter. A letra é verdadeira, tem força e é bem escrita. O clipe não tem homens musculosos sem camisa, tampouco piriguetes se esfregando em alguma pilastra de uma festa milionária. Vemos apenas Adele, andando calmamente, e põe calmamente nisso, à beira do rio Sena. Sim, o clipe deve ter custado muito pouco para ser produzido, mas ainda assim, vale mais que os clipes dos seus colegas das paradas de sucesso.

A síndrome do sono ao volante

2 de maio de 2012

Esse é o título da nova crônica que eu postei no blog das pessoas. Clique no link e confira. http://blogdas30pessoas.blogspot.com.br/2012/05/sindrome-do-sono-ao-volante.html

O futebol e suas vicissitudes

18 de outubro de 2011

Hoje de manhã, a pedido do doutor Marcelo, fui fazer uma nova radiografia no meu dedo quebrado. Cheguei às sete e meia, mesmo sabendo que ele  só estaria lá às oito. A quantidade de idosos que frequentam a Cotrauma é impressionante e essa turma adora chegar cedo. Isso sem contar os que chegam antes da abertura do estabelecimento e ficam em pé do lado de fora, impacientes e nervosos. Mas isso é tão absurdo que nem entra nas minhas estatísticas. Vale dizer no entanto que com a extinção da fisioterapia, a quantidade de idosos caiu muito. Fizeram uma grande obra no primeiro andar e a clínica funciona temporariamente onde era a fisioterapia. Agora a radiografia é sobre a mesma maca que eu fazia exercícios de recuperação para o joelho, no ano passado, e para a virilha, esse ano. Todas as lesões, inclusive o dedo quebrado, foram fecundadas no campo de futebol.

Um amigo meu disse ao seu ortopedista que, com exceção do joelho, o corpo humano era perfeito. O profissional foi categórico. “O corpo humano foi feito para caçar gazelas no bosque. Não foi feito para jogar futebol”.

Pelo menos eu era o único cliente do ortopedista Marcelo. Para ser mais exato, eu era o único cliente da Cotrauma inteira. Abri um livro, para me ajudar a pegar no sono, usei o casaco de travesseiro e me acomodei perfeitamente com a cabeça apoiada sobre a mão que não estava lesionada. Alguns minutos depois, após acordar sozinho e me ajeitar na cadeira, uma mulher na casa dos quarenta anos, sorriso de recém ganhadora da Mega Sena e máquina 3 no cabelo, diz:

– Você quebrou o dedo, foi?

Se já não bastasse uma pergunta dirigida à minha pessoa naquelas circunstâncias, ainda tinha aquele irritante “foi” no fim da pergunta. Tentei sorrir com muita dificuldade. Provavelmente não o fiz.

– Sim. Jogando futebol.

– Posso ver o livro que você está lendo?

Você deve estar pensando que estou inventando tudo isso, mas eu juro que é verdade. A mulher sabia que eu estava dormindo e mesmo assim começou a conversar, como se eu fosse um cara que ela não via há 25 anos, desses que foi melhor amigo no colégio ou qualquer coisa que o valha.

– Pode.

Sabe aquelas pessoas que pegam o livro e passam horas analisando as insignificantes primeiras páginas, em vez de partir para a introdução, orelha ou algum capítulo? Pois era exatamente isso. Talvez eu seja o único chato dessa história, mas uma coisa é certa: não há nada de errado em querer dormir em vez de dialogar com estranhos numa sala de espera.

Então ela pousa os olhos sobre uma pequena dedicatória da minha namorada, que havia me dado o livro de presente.

– Você é casado?

– Não.

– Noivo?

– Não.

– O que você faz da vida?

– Eu sou jogador de futebol.

– É mesmo?

– Sim. No momento estou à procura de um clube. Eu estava jogando no Friburguense, conhece?

– É um time do Rio?

– Sim. Lá de Friburgo.

– Só conheço Vasco, Botafogo, Flamengo e Fluminense. Sou de Porto Alegre.

– Eu já joguei em Porto Alegre.

– Sério?

– Joguei nas divisões de base do Grêmio, mas o técnico era um mala. Cismou comigo e me cortou do elenco. Mas foi melhor assim. Lá eu não tinha família, amigos, comia mal, era frio. Voltei pra cá.

– Entendo.

– Acho que estão me chamando. Tenho que ir. Prazer em te conhecer.

Meus 10 filmes favoritos de comédia (década 2000)

21 de setembro de 2011

10° posição -> Antes só do que mal casado (2007)

9° -> O Virgem de 40 anos (2005)

8° -> Entrando numa fria (2000)

7° ->  Sim, senhor (2008)

6° -> Rat Race (2001)

5° -> Hitch, Conselheiro amoroso (2005)

4° -> Zohan, O Agente bom de corte (2008)

3° -> As Férias de Mr. Bean (2007)

2° ->As Loucuras de Dick e Jane (2005)

1° -> Tudo pode dar certo (2009)

Obs.: É isso mesmo. “Se beber não case” é um ótimo filme, mas ficou de fora lista.

Uma miniodisseia na galeteria

17 de agosto de 2011

Era uma tarde de sábado, dessas que você acorda tarde e fica amebando em frente à TV até a hora do almoço.  Fui andando até a Cobal do Humaitá. A minha missão era muito simples: devorar um delicioso galeto.

Fiz agora uma rápida pesquisa na internet  e vi que o galeto na brasa é uma iguaria que só existe no Brasil. A Itália faz algo semelhante, porém com pássaros.

Para acompanhar aquele néctar dos deuses, ou melhor, das granjas, eu tinha Coca-Cola, arroz, farofa e batata frita. O que mais eu podia querer? Chopp? Não, óbvio que não. Junto com a comida é inviável. Você fica imediatamente estufado e empapuçado, que nem o Baiacu do comercial da Skol 360. Um gole de chopp durante uma refeição equivale a 2 litros deste mesmo chopp em condições normais.  Quanto a comer uns petiscos, não tem problema, mas é bom ficar de olho.

Depois da segunda garfada no galeto, posei os talheres, fiquei um tempo bebericando a Coca, bastante pensativo, olhando para o infinito. Tomei mais um pouco de coragem e chamei o garçom:

– Eu sei que pode parecer bobagem, mas este galeto veio desossado. Eu queria o tradicional.

– O senhor não disse que queria o tradicional.

– Mas também não disse que queria o desossado. Se eu pedi um galeto, automaticamente é o tradicional, não acha? É como pedir uma Coca-Cola. Se eu não especificar se é light ou normal, você vai trazer a normal, certo? Aliás, foi o que aconteceu com esta Coca que eu bebo agora. Lamento muito por  esta solicitação, estou me sentindo mal com o desperdício, mas é que pra mim faz muita diferença.

Meio que à contragosto e sem dizer nada, o garçom levou o galeto paraguaio embora e me trouxe um novinho, que foi devidamente devorado em minutos. O arroz, a farofa e a batata já estavam frios, mas fiquei quieto. A cota de exigências e reclamações daquele sábado já havia se esgotado.

Uma odisseia no Detran

18 de julho de 2011

Os cariocas reclamam muito da Lei Seca, da vistoria anual de seus carros, do mau tempo, de uma semana improdutiva jogada no lixo, mas creio que todos – lá no fundo de suas almas penadas – são favoráveis a essas questões. Por mais que sejam desconfortáveis, constituem o chamado mal necessário. É como tomar um gol do time adversário, virar a partida para 2 a 1 e levantar a taça. É como fazer uma caminhada de três horas e meia na mata fechada, com bolha no pé, filho de treze anos chorando aos berros pedindo colo, formigas criminosas subindo pela sua meia soquete – aliás, que ideia de girico caminhar na mata de meia soquete -, teias de aranha grudando no seu braço e a fome te deixando com dor de cabeça, mas depois de tudo isso, deslumbrar uma cachoeira paradisíaca com água cristalina.

Foi com esse sentimento que eu peguei o meu carro às 15 horas de uma quarta-feira e me dirigi (literalmente) até o posto do Largo do Machado. Já no meio do trajeto, recebo uma ligação da moça que trabalha comigo. Foi ela quem passou a relação de todas as multas a serem pagas e marcou a vistoria.

– Paulo, apareceu mais uma multa no sistema. Como ela só vence em setembro, pensei que não precisava pagar antes dessa vistoria. Mas acabei de falar com uma pessoa do Detran. Se você não quitar essa multa agora, será preciso voltar lá num outro dia só para pegar o certificado.

Sorte que eu estava com o papel da multa na minha mochila. Em vez de continuar pela Voluntários da Pátria, deu tempo de dobrar à esquerda visando o Itaú do Humaitá. Uma fila absurda e, pra piorar, o livro que eu estava lendo ficou no carro. Era um infeliz para atender o povão e outro infeliz para atender a velharia. Ao dizer infeliz, estou querendo dizer que os dois funcionários provavelmente estavam tristes porque não haviam outros para dividir o grande volume de trabalho com eles. E não porque são medíocres ou exercem um trabalho indigno. Muito pelo contrário. Lidar com somas de dinheiro às vezes astronômicas diante de pessoas insanas não é para qualquer um. Isso sem contar que digitam no teclado com a mesma velocidade do Cazé Peçanha no extinto programa Teleguiado, da MTV. Para ilustrar o meu pensamento, clique  no link ao lado e veja, mais precisamente aos 00:53 de vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=uP061WtlPsk.

Confesso que eu já acreditei que ele digitava de verdade o nome das músicas das pessoas que ligavam (não existia internet naquela época). Há alguns anos o encontrei na Livraria Cultura de São Paulo, compenetrado, passeando por livros de arte importados. Me arrependo de não ter dito que era fã do Teleguiado e que ele era o melhor VJ da história daquela emissora. Talvez não o mais engraçado, vide Adnet, mas sem dúvida o mais culto e inteligente.

Apesar da demora no banco, me atrasei apenas 7 minutos. Fui designado ao vistoriômetro de número 4.  Lanternas, setas fronteiras, traseiras, esquerdas e direitas, abertura de capô, farol baixo, farol alto, limpador de parabrisas, raspadinha de chassi. Tudo certo. Eu havia me preparado para aquele dia como um mecânico que se prepara para entregar o carro de passeio do Ayrton Senna.

– Farol de neblina?

Aquele nome não me era estranho.

– Farol de milha? – continuou o vistoriador.

Também já tinha ouvido falar em farol de milha. Eu já desconfiava que farol de milha e farol de neblina eram a mesma coisa, mas agora eu tinha certeza.

– Acho que o meu carro não tem farol de milha – disse timidamente.

– Tem sim.

Comecei a ficar nervoso, mas não transpareci. A julgar pelo modo que ele me respondeu e pelo jeito desleixado que ele esperava a porcaria do farol de milha, provavelmente eu seria reprovado no teste. Apertei tudo que é botão, o limpador traseiro começou a operar no seco, o da frente em todas as velocidades da música do créu, de 1 a 5, também a seco,  liguei pisca alerta e depois desliguei imediatamente pro cara não achar que eu era maluco, dei umas três pressionadas no farol alto, não para ele achar que eu era maluco, mas de propósito mesmo, para descontar a minha raiva. Estava mais perdido que daltônico diante de um pote de jujubas. Perguntei baixinho para um outro vistoriador que estava sentado ali perto numa mesa plástica, dessas de boteco, “você sabe onde fica o farol de milha desse carro?”. Ele balançou discretamente a cabeça e fez um beicinho. Não estava a fim de ajudar. Até que uma pessoa aleatória, que certamente ouviu a minha pergunta, se aproximou do meu carro e apertou um botão escondido em cima da saída lateral esquerda do ar condicionado. Mais precisamente, ali, na minha fuça. Ficava entre o retrovisor do motorista ignorante e o volante. Nunca vou me esquecer daquele símbolo estranho, que parece a espinha de um peixe de desenho animado. Na verdade, o cara não chegou a apertar, apenas indicou com o dedo indicador e continuou andando. Provavelmente  era um daqueles anjos de filme de sessão da tarde que salvam o protagonista num momento difícil.

– Beleza. Agora acelera o carro e procure se manter naquela velocidade que aparece na tela do computador.

A espera de quase uma hora para receber o glorioso e cobiçado certificado de registro e licenciamento 2011 tinha tudo para ser uma chatice sem tamanho. As outras pessoas na sala de espera ao ar livre que o digam. Bufavam, gesticulavam e  reclamavam com os funcionários. Não os culpo. Provavelmente agiria da mesma forma se eu não tivesse um ótimo livro para me distrair. O mesmo que eu havia esquecido na fila do banco. Quando fui chamado, tive vontade de dizer “só um minuto, faltam 2 páginas para acabar o conto”. Saí de lá pensando em milhas acumuladas para uma viagem de avião, pamonha, milho verde e no jogo Enduro, do Atari, no qual a fase mais difícl era aquela em que o carros apareciam do nada e era quase impossível desviar. Era a fase da neblina.

Como amassar latas de cerveja em escala

17 de junho de 2011

A história que eu estou prestes a contar pode ser repetida para alguns ou muitos de vocês. Se for este o caso, não vou ficar chateado com o seu comentário ou pensamento negativo ao meu respeito. Vou entender perfeitamente a sua sensação de tempo perdido, ainda mais com tantas fotos e status de relacionamento que você precisa curtir e comentar no Facebook.

Mas caso você nunca tenha ouvido esta história e mesmo assim a considere insignificante, meus pêsames: você tem um futuro negro pela frente. Antes que você me chame de convencido, prepotente e metido, entenda que  não estou me referindo ao texto. O seu futuro, seja este negro ou brilhante, não tem qualquer relação com o fato de você gostar ou desgostar do meu jeito de escrever.

Isso tudo para dizer que eu vi um revolucionário catador de latinhas no centro do Rio. Mais especificamente na Rua do Rosário. Talvez ele não seja o precursor dessa técnica, mas como nunca vi ninguém fazendo um troço desses antes, para mim ele é o guru das latinhas. Vi o homem despejando na calçada uma enorme e suja sacola plástica contendo cerca de 60 latas. A Rua do Rosário, para quem não sabe, é uma estreita rua de paralelepípedos, muito estreita (nem ouse levar a sua Land Rover para passear por lá), muito estreita mesmo, com baixo movimento de carros e fedorenta. O herói da nossa historinha começou a chutar as latas para dentro da rua. Sim, para dentro da rua. De tão alto, o meio fio parecia um muro de uma escola infantil. Veja que ele poderia ter jogado as latas todas de uma vez nas pedras de paralelepípedo. Mas alguns minutos depois fui entender que chamaria muita atenção dos carros e dos transeuntes, então  foi bicando discretamente em doses homeopáticas. Se ele estivesse muito próximo à cena do crime, os motoristas poderiam forçá-lo a retirar os seus pertences do meio da rua, mas como não tinha ninguém por perto, era melhor passar de uma vez do que ficar se queixando com o vento.

Chutou umas vinte latas e se fingiu de transeunte, como se aquelas latas não tivessem nada a ver com a vida dele. Passou o primeiro carro, logo depois veio o segundo. Ele tinha conseguido amassar grande parte das latas. Era este o seu método, que também consistia em arrumar as latas que já estavam na rua, de modo que estivessem na trilha das rodas, e não no intocável e improdutivo miolo. Experimente andar em cima de um monte de plástico bolha. O efeito produzido pelos veículos era o mesmo. Sim, o nosso amigo é um gênio.

Uma odisseia na prova de auto escola

17 de maio de 2011

Entrei no carro. Bati a porta. Endireitei os retrovisores com a mesma destreza que eu ajeitava os pedestais de prato da bateria na época em que me apresentava ao vivo frequentemente. Já vi gravado em fita e tudo. Isso mesmo, fita cassete. Faz muito tempo. Termina a música, eu me levanto, mexo 2 milímetros na altura do prato de ataque Zildjian e me sento novamente no banquinho. Dou uma nova olhada, mas não gosto da posição do prato, que parecia perfeita quando eu estava em pé fazendo os ajustes.  Me levanto novamente e mexo, dessa vez, 1 milímetro e meio. Vale dizer que uma banda inteira composta por dois guitarristas, uma vocalista, uma percussionista e um baixista espera pacientemente pelos meus caprichos bizarros. Felizmente estes ajustes cirúrgicos se perderam completamente com o passar dos anos. O mesmo vale para os retrovisores.

Liberei o freio de mão. Liguei o carro. Engatei a ré. Percorri um percurso aproximado de 0, 0003 quilômetros.

– Para! Para!

(agora o verbo “parar” no presente da terceira pessoa do singular não leva mais acento)

Olhei indignado para o aplicador da prova.

– O que houve?

– Você esqueceu de botar o cinto. Perdeu 3 pontos.

– Isso quer dizer que…

– Isso mesmo. Você não pode perder mais nenhum ponto.

Eu ainda tinha que entrar na porcaria da vaga, sair com o carro da mesma vaga e dar uma volta no percurso oval com a presença de motoristas comuns, quer dizer, já gabaritados pelo Detran. E sem cometer mais nenhuma falta. O carro chacoalhava feito uma máquina de lavar. O meu pé direito parecia meio dormente por causa do nervosismo. Não sei bem o que houve. Só sei que lá pelas tantas, ainda tentando manobrar na vaga, a máquina de lavar pifou. Alguém tirou da tomada ou a luz do prédio acabou. Vá saber.

Olhei para o aplicador da prova com a mesma cara do Gato de Botas do Shrek.

– Liga logo esse carro, antes que algum colega perceba.

Tecnicamente eu tinha 5 pontos.

– Muito obrig…

– Se concentra aí garoto. Mais meio ponto e eu te reprovo. Não fala nada. E dá um jeito nesse carro. Balança mais que uma charrete guiada por um asno (na verdade ele não disse exatamente isso, mas achei que tornaria o texto mais interessante).

Não cometi mais nenhuma falta. Fui aprovado com (duvidoso) louvor. Demorei cerca de um ano para aprender a dirigir, ou melhor, deixar de ser uma ameaça constante para motoqueiros, caminhoneiros, motoristas de ônibus, pedestres e quem mais estivesse no meu caminho. Aproveito a oportunidade para agradecer a paciência de todos os amigos que estiveram comigo nesta difícil jornada iniciante, seja no banco carona ou no banco traseiro. Não sei o que era pior. Ver o perigo de camarote pelo banco da frente ou ficar no banco de trás e ver o perigo com menos exatidão. Pedidos inusitados como este eram comuns: “vê aí pra mim se eu posso mudar de faixa”. Este pedido assustava ainda mais os meus amigos. Eu dizia que era impossível olhar para o retrovisor e para a frente ao mesmo tempo. Quando os amigos se reuniam em 3 motoristas para 15 moleques irem ao cinema ou coisa parecida, era comum alguém dizer a um colega desavisado, “se você está à procura de adrenalina e fortes emoções, vai com o Pilha”.