Uma odisseia no laboratório

18 de março de 2011

Fiquei doze horas em jejum para fazer um exame completo de sangue. E não era só isso. Tinha também o tal do exame de urina. O meu plano era Bradesco, e o outro, chegar ao laboratório Sérgio Franco às 9h30. Acordei antes das seis, com muita vontade de urinar, e matei a vontade – ou pelo menos uma parte dela – no potinho amostral de urina comprado na noite anterior.

Logo que eu cheguei ao laboratório, vi uma daquelas cenas lamentáveis, porém muito comuns em laboratórios de diagnóstico: cliente exasperado humilhando funcionário. No caso em questão, era um homem bem vestido, na casa dos sessenta e oito anos, óculos escuros pendurados na altura do peito segurados por uma cordinha, e um olhar blasé, típico dos aposentados que tiveram um cargo importante numa grande empresa e hoje passam a tarde vendo TV e importunando a empregada.

– Infelizmente deu erro em um dos exames e o senhor terá que tirar sangue novamente.

– Você só pode estar de brincadeira.

– Me desculpe, senhor.

– Chama logo a porcaria do seu superior. Isso aqui é um laboratório sério ou é um açougue? Você sabe quanto custa um exame desses, minha filha?

– O senhor tem plano, senhor.

– Escuta aqui, minha filha. Não me chame mais de senhor, está bem? Cadê o seu supervisor? Olha aqui, eu não vou refazer exame nenhum. Vocês vão ter que consertar essa merda.

Felizmente não ouvi o restante da “conversa”. Entreguei o potinho de urina e o pedido médico, preenchi um questionário enfadonho e, alguns minutos depois, fui chamado para o exame. Uma moça muito simpática e falante me recebeu acompanhada de um rapaz tímido e jovem, que lembrava um pouco aquele adolescente do seriado Anita, que era tarado por ela.

– Eu vi que você trouxe também um exame de urina. Que horas você urinou? – ela disse.

– Umas cinco e pouco da manhã.

– Colocou na geladeira?

– Não.

– Então você vai ter que refazer o exame de urina. Me desculpe.

Me lembrei do velho dos óculos pendurados.

– Não sabia que a urina tinha que ir pra geladeira.

– A urina só pode ficar fora da geladeira por duas horas.

– Tudo bem, não tem problema. Eu faço de novo.

– Você já desmaiou alguma vez?

– Já fiz muitos exames de sangue, mas só desmaiei uma vez. Eu estava muito febril e fraco nesse dia. Então, diria que as chances de acontecer de novo são remotas.

– Bom, de qualquer jeito, tem café, chocolate e salgadinhos, logo aqui, no fim do corredor.

– Maravilha.

– Qual braço você prefere?

– Sei lá, tanto faz – eu disse. – Mas pode ser o esquerdo.

Foi aí que o rapazinho se aproximou de mim timidamente e apertou o braço escolhido com uma borracha para pular a veia. Ele estava nitidamente nervoso e até o momento não tinha dito uma palavra sequer. Isso não era bom. Mas eu pensei “trata-se de um exame simples, muito simples, vai dar tudo certo”.

Vi o primeiro jorro de sangue adentrar o frasco de plástico da seringa. Não vi o segundo jorro, nem o terceiro, nem o quarto.

A moça falante, experiente e simpática se aproximou, deu um chega pra lá no moleque e assumiu a parada.

– Perdemos a conexão com a veia. Mas tá tranquilo. Não se preocupe. Vamos fazer no outro braço. Essas coisas acontecem.

Puta que pariu, eu pensei. Estagiário filho da puta.

Se não me engano eram quatro frascos de sangue no total. A moça tirava o meu sangue com a destreza de um cirurgião gelado da Suíça, mas lá pelo terceiro frasco eu comecei a ver umas imagens turvas que se multiplicavam como Gremlins nas cataratas do Iguaçu. Fiquei calado esperando o momento certo. Eu só ia dizer alguma coisa quando a agulha fosse retirada. Se eu dissesse que estava passando mal, ela poderia interromper a retirada de sangue e eu ia ter que fazer tudo de novo, que nem o velho dos óculos pendurados.

– Acho que eu vou desmaiar.

– Vagner, pega um café e um salgado pra ele. Rápido.

– Respira fundo. Fica tranquilo. Se você desmaiar não tem problema. Eu tô aqui pra te ajudar.

– Qual salgado eu trago?

Eu adoraria não ter que escrever a fala acima, mas infelizmente ela condiz com a verdade.

– Anda rápido! Qualquer coisa!

Suava frio feito um porco. Lutava bravamente para não desmaiar. A moça segurava a minha cabeça e continuava a dizer palavras de conforto. Segundo ela, eu desmaiei por cerca de dois segundos. Me lembro de ter “acordado” com um copo plástico de café pressionando o meu lábio inferior. Depois chegou até a minha boca um salgadinho bem vagabundo, daqueles que você encontra na Aviação Cometa, classe econômica, sem ar condicionado. Percebi então que já era possível mexer as mãos e segurei o copo de café. O estagiário estava encostado na porta, mais nervoso e tímido que antes enquanto a moça estava radiante com a minha recuperação. Me colocaram numa cadeira de rodas (me senti o Cazuza em Boston), me deram mais café e salgadinhos no meio do caminho e me puseram, por fim, numa espécie de espreguiçadeira. Foi um susto muito grande, mas valeu muito a pena. A sensação pós-semi-desmaio é indescritível. Se bobear eu tive um mini-nirvana budista e nem sei.

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Uma Odisseia em Seattle com o Bad Religion

17 de fevereiro de 2011

As pessoas se empurravam como se fossem feitas de borracha. Outras navegavam por cima da multidão como se estivessem num caiaque, navegando em mar agitado. Eu ficava na defensiva, imóvel, tentando manter os pés fincados no chão. Todo o cuidado era pouco para não entrar num redemoinho e ser lançado para longe.

***

Era o meu último dia em Vancouver. Depois de jantar com um casal de amigos, fui sozinho a um bar irlandês que tinha conhecido rapidamente na noite anterior. Não estava com paciência para tomar cerveja e sorvi três maravilhosos Captain´n Coke, que me deixaram um tanto quanto trôpego no caminho de volta ao albergue. Tinha que acordar muito cedo no dia seguinte para pegar um ônibus para Seattle, o último destino da viagem. Mas quase chegando ao meu dormitório, eu avistei um cyber café ao lado de uma pizzaria e achei que valia a pena comer uma fatia de pizza e checar o e-mail. Na verdade, só valia a pena mesmo a fatia de pizza. Checar o e-mail às três da madrugada, sendo que eu tinha que fazer a mala e estar na rodoviária às nove, era uma ideia estúpida e irresponsável. Eu ia acabar olhando facebook, globoesporte.com, enfim, gastar um tempo precioso que eu não tinha e se não bastasse isso, não teria condições de responder os e-mails porque estava muito bêbado para isso. Então, além de não responder nenhum e-mail pendente, eu entrei também na The Bad Religion Page, o maior site dedicado ao grupo de punk rock Bad Religion na internet.

Antes de embarcar para San Francisco, a primeira cidade que eu visitei na viagem (clique aqui e leia o texto que eu fiz dedicado a San Francisco), eu criei um novo tópico no fórum desse site no qual eu dizia que estaria no show deles em Seattle, no dia 17 de novembro. Como as pessoas não me conheciam pessoalmente, não obstante os meus covers acústicos de Bad Religion que eu posto no YouTube desde 2007, eu disse que estaria usando a camisa de futebol da Croácia, que é muito chamativa com as suas cores branca e vermelha no modo xadrez. Por mais que eles lembrassem do meu rosto dos vídeos, eu seria só mais um na multidão, quase impossível de ser localizado à distância.

Uma hora antes de eu entrar naquele cyber café, um americano do Texas postou no tal fórum criado por mim que o Greg Graffin, vocalista da banda, iria autografar o seu último livro num outro local, um pouco antes do show. Aquela minha ida ao cyber café, antes uma irresponsabilidade sem tamanho acabou se tornando algo heróico. No dia seguinte eu dificilmente entraria na internet e ficaria sem saber da sessão de autógrafos. Eu iria chegar em Seattle na parte da tarde e ficaria passeando até a hora do show, marcado para as 20 horas.

Todos os passageiros do ônibus tiveram que descer na divisa com os Estados Unidos. Fiquei intrigado com um enorme aviso numa parede enquanto aguardava a minha vez. “We do not accept canadian money here”. O que me espantou não foi o fato deles não aceitarem o dinheiro canadense, isso era óbvio, mas eu não imaginava que eles iriam chamar de “canadian money”. O nome da moeda é “Canadian dollar”. Eu posso estar errado, mas achei um certo descaso chamar de “dinheiro canadense”, como se isso fosse algo inferior. “Não aceitamos essa merda aqui”. Foi o que soou pra mim ao ler o aviso.

Sabendo que só teria algumas horas daquela quarta e o dia todo de quinta para conhecer a cidade, me hospedei num hotel no coração de Seattle.

A sessão de autógrafos estava marcada para às 18 horas e acabou que deu tempo de passear um pouco a pé pelas redondezas. Eu pensava que o Greg Graffin estaria numa micro bancada esperando meia dúzia de fãs, o que me levou a chegar meia hora atrasado. O nome do lugar era Town Hall. Não parecia nem um pouco com uma livraria. Tinha um cara na porta que me disse que a entrada custava cinco dólares. Sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, paguei a quantia solicitada e entrei. Deviam ter umas duzentas pessoas. Todas elas sentadas, em silêncio, ouvindo atentamente o vocalista do Bad Religion. Ao lado dele, também de microfone em punho, estava o co-autor do livro, que fazia o papel de entrevistador. Praticamente todos os assentos estavam tomados, sobretudo aqueles mais próximos ao palco. Mas como eu estava sozinho e as pessoas sempre deixam um ou outro espaço vazio entre elas (adquiri essa experiência de tanto ir ao cinema desacompanhado), procurei um assento vago nas três primeiras filas e, como de costume, encontrei. Perguntei a uma linda menina se o lugar ao lado dela estava vago. Me olhou com cara de poucos amigos, mas fez que sim. Ela estava séria, compenetrada e fazia anotações num caderno. Provavelmente era fã do Greg Graffin professor de biologia na UCLA e não fã do Greg Graffin vocalista de uma banda de punk rock. Seja lá o que for, nunca vou saber se ela realmente conhecia as músicas aceleradas, curtas e melódicas escritas por aquele homem semi-careca.

Graffin andava de um lado para o outro enquanto falava sobre religião, fé, sociedade, sua vida pessoal e questões biológicas mais técnicas, aliás, super técnicas. Ele basicamente fez um apanhado geral do livro que eu tinha acabado de ler na viagem de ônibus para Seattle.

Depois de mais uma resposta eloqüente do vocalista do Bad Religion, o entrevistador e co-autor comunica que a palestra está chegando ao fim, mas antes, eles iam abrir para algumas perguntas da platéia. A produção do evento tinha posicionado dois microfones, um de cada lado do palco. Quem quisesse fazer perguntas ao Greg, deveria ir até um dos pedestais e mandar ver.

Quando eu soube dessa palestra, quer dizer, eu pensava que era apenas uma sessão de autógrafos comum, daquelas que a pessoa dá o livro para o autor assinar, troca meia dúzia de palavras com ele, bebe um vinho de quinta categoria e vai embora. Enfim, quando eu fiquei sabendo desse evento pelo fórum que eu havia criado na “The Bad Religion Page”, eu cogitei pela primeira vez perguntar ao Greg se eu poderia cantar uma música com a banda no palco. Por mais insano que aquilo pudesse parecer. Desanimei um pouco quando vi aquela multidão, mas continuava com o mesmo plano na cabeça. É claro que eu não iria perguntar naquele auditório lotado, na frente de todo mundo. Isso estava fora de questão.

As perguntas da platéia iam se sucedendo e de repente uma voz interior muito poderosa começou a falar comigo e a me fazer uma série de perguntas, ameaças e ofensas morais.

– Você quer mesmo cantar com a banda? Sim ou não?

– Sim – eu respondi.

– Então não deixe para perguntar quando o Greg estiver assinando o seu livro. Ele provavelmente vai dizer não. Você tem que perguntar agora, nesse segundo, na frente de todo mundo.

– Você tá louco, não vou fazer isso – retruquei, com desdém.

– Bom, o recado está dado.

Uma fila de duas pessoas se formou atrás de cada um dos microfones. A sessão de perguntas da plateia transcorria sem grandes emoções até uma menina perguntar alguma coisa sobre a educação dos filhos dele. A resposta veio num tom ríspido e seco. “Bom, acho que da educação dos meus filhos cuido eu”. A menina ficou visivelmente sentida e ele tratou logo de consertar a frase infeliz, se desculpando e amaciando as suas palavras. O professor punk ateu ainda aproveitou para dizer que não tem mesmo muito talento ao dialogar com as pessoas. Disse que volta e meia acaba dizendo alguma coisa ríspida contra a sua vontade.

– Está bem, você venceu – eu disse, para a minha voz interior.

Levantei da cadeira e fui até o final de uma dass filas. Na minha frente, uma única pessoa.

– Sábia decisão, meu caro. Agora presta atenção numa parada. A escolha da música é crucial. Você precisa pedir uma música curta, que você saiba 500% a letra, que esteja já num tom apropriado para a sua voz e não pode ser muito famosa. Os fãs normalmente preferem escutar os grandes clássicos cantados pelo próprio vocalista da banda.  Não pode ser também uma música que eles nunca tocam ao vivo, pois eles precisaram de ensaio antes do show e isso está fora de questão. Tem que ser uma música freqüente no set list da banda.

– O que você está me dizendo faz todo sentido. Mas não é melhor eu primeiro perguntar se posso cantar com eles? Se ele disser que sim, depois eu decido com a banda qual música eu canto.

– Você está de sacanagem, né? Você acha mesmo que o Greg Graffin vai dizer “está bem, meu filho, qual música você quer cantar?”. Aí você gagueja e responde “vou pensar até a hora do show”. Não, porra. O discurso tem que ser curto, na lata, direto. Não é pra ficar de lenga-lenga. Você precisa ser firme.

Então eu me lembrei do dia 13 de março de 1999. Uma amiga descobriu o hotel que a banda iria se hospedar no Rio e me chamou para ir com ela. Eu recusei num primeiro momento porque achava ridículo essa história de encontrar banda em hotel. Aquilo era coisa de menininha fútil de treze anos e eu já estava quase me formando no colégio. Porém, por mais bizarro e infantil que fosse, era a chance que eu tinha de conseguir um autógrafo de todos os integrantes, fazer um quadro e colocar na parede do meu quarto.

Ficamos esperando algum tempo no saguão do hotel ao lado de cinco ou seis outros fãs e eu não tinha planejado nada de interessante para dizer a eles. Então, quando adentraram o saguão do hotel, fiquei praticamente mudo enquanto o meu encarte do disco solo do vocalista era assinado por todos. Aliás, uma grande mancada minha. O encarte tinha que ser de um dos discos da banda. O meu nervosismo / timidez / falta de planejamento conversativo só foi superado no momento em que eu perguntei ao baixista Jay Bentley e ao vocalista Greg Graffin se era possível eles tocarem a música “Anesthesia” naquela noite. Eu tinha ido ver a banda quatro dias antes em São Paulo e esta canção, de 1990, não estava no repertório. Para o meu espanto, a música foi tocada no show do Rio, mesmo sem fazer parte do set list dos outros shows da turnê do Brasil, conforme eu pude constatar via internet alguns dias depois. Eles tocaram duas vezes em São Paulo, depois foram para Santos, Curitiba e, por fim, Rio.

Anesthesia não é uma música tão famosa quanto American Jesus, Infected, Sorrow, e 21st Century Digital Boy, tem curta duração, o tom é apropriado para a minha voz e eu sabia 500% a letra. Logo, atendia a todos os pré-requisitos estabelecidos pela minha voz interior, que aprovou a canção com louvor segundos antes do meu pequeno discurso:

– I came all the way from Brazil to see you guys up here. I have more than 50 Bad Religion acoustic covers in YouTube, including a duo with Emily Davies.

– Eu a conheço. Qual é a música que vocês fizeram? – ele disse.

– Strange Denial, está no Youtube. Is it possible to sing the song Anesthesia on stage with you guys tonight?

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, só deu tempo dele fazer uma cara de espanto, a plateia riu e inundou o auditório com palmas efusivas. O mais curioso desse episódio é que durante a longa conversa que eu tive com a minha voz interior, nenhuma das partes cogitou que a platéia jogaria ao meu(nosso) favor. E eu acho que foi justamente esta incrível solidariedade internacional que me salvou.

– Se você for ao show com essa camisa e eu conseguir te ver lá na frente, está tudo bem, você pode cantar.

Voltei ao meu lugar. A menina ao meu lado continuava com a cara fechada, agora fazendo par com o seu caderno de anotações.

Fim da sessão de perguntas. Enquanto os fãs formavam uma fila para o Greg autografar, eu fui correndo até o hotel para deixar o meu livro no quarto e pedir um táxi. Eu já tinha comprado o meu ingresso do Brasil pela internet um mês antes, mas nunca se sabe. Se eu já sou normalmente ansioso, tente imaginar como eu estava naquele momento. Levei todo o dinheiro vivo que eu tinha reservado para os últimos dois dias da viagem. Eu não economizaria dinheiro num cambista se alguma coisa desse errado.

Felizmente não foi preciso conversar com nenhum cambista. Apresentei o meu passaporte, eles localizaram o meu nome, recebi o ingresso e entrei. Antes do Bad Religion, duas bandas locais de punk rock iriam tocar cerca de meia hora cada uma. Fui até o bar e pedi uma dose de whisky. Algumas pessoas que estavam na palestra me reconheceram e desejaram sorte na minha empreitada. Fiquei zanzando pelo lugar para matar o tempo até que eu encontrei o tal cara que postou no fórum sobre a sessão de autógrafos do vocalista. Eu disse que se não fosse ele, eu nunca teria sequer a chance de subir naquele palco. Ficamos conversando no bar enquanto a primeira e a segunda banda faziam shows mornos, sem nada de especial. A sua namorada, que quase não abriu a boca e desconhecia Bad Religion por completo, não estava dando conta dos chopps que ele trazia e eu acabei tomando por ela. Duas doses de whisky e três copos caprichados de cerveja depois e eu estava completamente sóbrio. Acho que diante do meu estado de excitação e nervosismo, nem se eu virasse uma garrafa inteira de rum eu ficaria bêbado. Eu poderia ser internado no hospital com parada cardíaca, mas ficaria sóbrio até o momento do piripaque.

– Assim que acabar o segundo show, a gente vai lá pra frente do palco. Eu te ajudo a chegar lá.

– Mas e a sua namorada?

– Não se preocupe, ela vai junto.

– Tem certeza?

– Cara, a gente tem uma missão aqui. Você tem que subir naquele palco.

Com muita dificuldade, a gente chegou perto do palco. Mas ainda tinha muita gente na nossa frente. Era definitivamente impossível seguir em frente.

– Quando começar a primeira música, a gente dá um chega pra lá nessas pessoas e vai pra primeira fila.

– Será? Acho que vai ser meio complicado – eu disse.

O meu novo amigo americano não deixava ninguém passar. Pedia gentilmente para os aventureiros darem a volta pelo outro lado. Alguns insistiam, ele engrossava o tom e eles desistiam. Este roteiro se repetia enquanto as pessoas começavam a empurrar umas às outras com mais força, formando ondas humanas. Pouco antes do início do show eu disse que ele não precisava se preocupar em me levar para a beirinha do palco. Eu tinha uma ideia que supostamente resolveria o problema e felizmente funcionou. Logo na primeira música do show, “Do what you want”, eu tirei a camisa da Croácia (estava com uma camisa branca por baixo, logo, não fiquei sem camisa) e a agitei na direção do vocalista. Ele apontou pra mim e riu. A missão estava cumprida. Eu havia feito a minha parte com a grande ajuda do americano, que achou melhor ir para longe do palco com medo da sua namorada ser pisoteada pela multidão.

Assim que acabou a décima sexta música do show, Ten in 2010, do disco The Gray Race, Graffin começou o discurso que eu esperava ansiosamente.

– A banda não sabe disso ainda, mas aconteceu uma coisa hoje na palestra sobre o meu livro. Um garoto brasileiro me perguntou se poderia cantar uma música e eu disse que sim. Apesar de eu ser um cara que cumpre promessas, eu preciso saber da opinião de vocês. E então, quem acha que o brasileiro deve cantar levanta a mão.

Olhei pra trás e vi um mar de pessoas com os braços levantados. A vontade de urinar que me perseguia de uma maneira indescritível desde o início do show de repente desapareceu. Eu nunca segurei tanto o xixi como naquele dia.

– Quem não quer que o brasileiro cante?

Poucas pessoas levantaram a mão.

– Ok, you win! Come on up!

“Esse cara sou eu, me ajudem a sair daqui”, eu dizia sem parar, esprimido lá na frente. As pessoas acreditaram em mim e um garoto fez o famoso “pezinho” para eu escalar a grade de contenção. Uma vez no mata-burro, espaço entre o público e o palco, perguntei ao segurança “como proceder?”, ele apontou para o lado esquerdo do palco. Subi sem dificuldade. O que aconteceu no palco pode ser visto no vídeo abaixo.

Saí do palco arrasado. Tudo bem que eu estava nervoso, que era a realização de um sonho, que a platéia era enorme, mas ainda assim, eu não podia ter esquecido um pedaço da letra. Os fãs vieram falar comigo em estado de êxtase, muitos pediram para tirar fotos e ganhei até cerveja de graça no bar. Mas nada disso aliviava a minha frustração. Quase não dormi esse dia por causa dessa maldita letra. Levei uma semana para me desculpar pelo erro e finalmente curtir aquele momento único que vou levar para o resto da vida.

Meus 10 tweets preferidos

17 de janeiro de 2011

Desde que eu entrei para o twitter, em meados de 2009, eu lamentava a facilidade pela qual uma bela frase era esquecida no histórico de informações do microblog, que mais parece um buraco negro. Quem tem twitter e posta com uma certa frequência sabe a dificuldade que é para ler uma frase postada três meses antes. Só em março de 2009 que eu me dei conta de que a solução para o meu problema sempre existiu. Os programados do twitter já tinham pensado nisso e criaram uma ferramenta chamada “Favoritos”. O usuário então pode marcar com uma estrelinha os seus tweets favoritos. De lá pra cá, eu marquei ao todo 34. É uma pena que muitos outros, num total absurdo de 4586, estejam perdidos no tempo.

Dos 34 tweets que foram salvos, segue abaixo os meus 10 preferidos, em ordem decrescente:

Décimo lugar: Ronaldinho Gaúcho é que nem plano de saúde. É melhor ter do que não ter.

Nono Lugar: Quem faz aniversário deveria ouvir “meus pêsames, a velhice é uma merda” em vez de “meus parabéns”.

Oitavo Lugar:Essa música cairia como uma luva na página inicial do site do Vigilantes do Peso:”o que eu ganho, o que eu perco, ninguém precisa saber”.

Sétimo Lugar: Da série “metas para 2011”: Superar a média anual de idas à praia que está na casa de 3,5 / ano.

Sexto Lugar: Você já reparou que “Fred” é o único nome do mundo que forma um quadrado perfeito no teclado do computador?

Quinto Lugar: Puta merda em inglês é “holy shit”. Em latim é “putis merdus”.

Quarto Lugar: Acredite. No Leblon tem mais Golden Retriever do que gente.

Terceiro Lugar: Ainda bem que não traduziram o nome do filme TRANSFORMERS. Você assistiria o filme Transformistas?

Segundo Lugar: De nada adianta ter talento, se você tá lento.

Primeiro Lugar: Os mágicos são muito bons na arte de fazer os objetos sumirem. Só perdem para as empregadas domésticas.

Ler ou não ler, eis a questão

17 de setembro de 2010

Se existe uma coisa nessa vida que eu odeio e amo ao mesmo tempo, essa coisa se chama “leitura”. Podemos também chamar essa coisa de “o ato de aprender o conteúdo de um texto escrito”, que no meu caso consiste em ler, no mínimo, vinte páginas todos os dias.

Leiturus amadus:

– Me sinto mais inteligente quando termino um livro, por mais que muitas vezes na realidade eu não fique

– Gosto da sensação do livro terminado

– Me dá forças para continuar escrevendo o meu próprio livro

– Mantém a minha mente inquieta ocupada

– É uma espécie de terapia

– Aumenta a auto-estima

Leiturus odius:

– Toma muito o meu tempo

– Me deixa aflito

– Me torna mais anti-social

– Pouquíssima gente lê

– Meus amigos não leem

– Não dá dinheiro

– Não passa de uma masturbação mental desnecessária (!?)

– Quanto mais eu leio, menos eu gosto do meu livro

– Ler é coisa de gente velha, que não teve vida digital quando era jovem.

– Ao invés de ler, eu poderia estar assistindo um bom filme dirigido pelo Tim Burton ou pelo Woody Allen

– Ao invés de ler, eu poderia estar jogando Super Mario Bros no Nintendo Wii, por mais que eu não tenha ainda este precioso aparelho eletrônico.

Ao contrário do que os filósofos pensam, pensar demais não é bom. Pensar demais gera dúvidas e dúvidas geram baixa produtividade. Pensando melhor, pensar demais gera conclusões idiotas e discricionárias, como esta.

Confesso que, pelo menos na atual conjuntura, ler vinte páginas por dia é um trabalho um tanto quanto árduo para mim. Tem gente que devora tranquilamente um livro por dia, outros corrigem cinco monografias num fim de semana. Acho que cada um tem o seu ritmo. O meu ainda está longe do ideal, mas os progressos têm sido satisfatórios. Veja que eu não estou considerando jornal, revista ou textos da internet. A minha meta diária é com livro mesmo, desses de carne e osso. Se eu ler cinco textos enormes de um famoso blogueiro e não abrir o “livro da vez”, o número de páginas lidas que eu colocarei na minha planilha do Excel será zero. Livros de poesia, mesmo os de carne e osso, também não entram na contagem. Os livros em 60% dos casos são romances e em 40% dos casos são biografias. É claro que esses dados são inventados, não fiz cálculos meticulosos, mas é bem capaz que seja isso mesmo.

Segue abaixo o número de páginas lidas nos últimos sete dias, de acordo com a planilha que eu cultivo há cerca de dois meses.

ano mês dia pgs lidas leitura

2008 set 10 sexta 20 ok

2009 set 11 sábado 6 não

2010 set 12 domingo 10 não

2010 set 13 segunda 20 ok

2010 set 14 terça 20 ok

2010 set 15 quarta 5 não

2010 set 16 quinta 13 não

Das 140 páginas que eu deveria ter lido no período, eu li 94. Temos aí um aproveitamento de 67%. Bastante razoável. Porém, a meta só foi cumprida três vezes, nos dias 10, 13 e 14.

Como não é possível (nem cabível) abrir um livro durante o horário de trabalho, e fora do expediente eu posso estar ocupado com várias outras coisas como escrever, tomar banho, jogar futebol, jantar, escovar os dentes e tocar violão, desenvolvi novos e peculiares hábitos de leitura que têm me ajudado muito a (quase) cumprir as minhas metas diárias.

1 – Banheiro

O banheiro é provavelmente o melhor recinto do mundo para ler. Você está sentado numa posição extremamente confortável, não há possibilidade de você cair no sono como acontece ao ler deitado na cama, a iluminação costuma ser excelente e não há nada nem ninguém para tirar a sua atenção do livro. Confesso que muitas vezes eu vou ao banheiro sem nenhuma necessidade fisiológica só para ler.

2 – Ler dirigindo

Trata-se do mais recente método que eu venho utilizando no meu dia-a-dia. Descobri que sinais vermelhos e congestionamentos são ótimas oportunidades para abrir o livro sobre o volante e devorar umas três ou quatro páginas num trajeto relativamente curto como Leblon-Copacabana. Eu coloco o CD do carro no pause quando paro no sinal vermelho e mando bala. Às vezes estou tão absorto na leitura que só arranco com o carro depois de ouvir uma ou duas buzinadas do carro atrás. Confesso que uma vez eu quase bati. O sinal abriu e eu estava no meio de uma frase interessante. Continuei lendo com o carro em movimento, pendendo pra esquerda, e quase raspo num outro carro na rua Jardim Botânico vindo na direção oposta. Não façam isso em casa! Quero dizer, não façam isso no trânsito. Leiam apenas em congestionamentos cavernosos, ou então, no sinal fechado com o freio de mão puxado, para não ter risco do carro se mover lentamente sem você notar. Confesso também que algumas vezes eu já peguei caminhos mais longos para ler mais páginas dirigindo.

3 – Táxi

Ler no táxi também é muito bom. Eu ainda escapo, certas vezes, de conversas insuportáveis. Vale lembrar no entanto que muitos taxistas são divertidos e vale a pena trocar uma ideia com eles. Quando eu me dou conta de que o cara é chato, eu abro o livro, ele percebe que eu estou lendo e para de falar. Quando o cara é bacana, eu deixo o livro fechado.

4 – Outros lugares

Além do táxi, do “ler dirigindo” e do banheiro, existem obviamente dezenas de outras opções para otimizar o tempo no que concerne a leitura, que eu pretendo descobrir em breve. Ir ao banco pagar uma simples conta é, muitas vezes, uma grande oportunidade para ler duas ou três páginas, dependendo obviamente do tamanho da fila do caixa. Dentistas e consultórios em geral, nem se fala. Além do que, aquelas revistas de fofoca amarfanhadas de três anos atrás não chegam a ser uma concorrência muito tentadora para eu não ler o meu livro.

Outros lugares como cinemas, restaurantes e estádios de futebol também podem ser uma boa saída rumo ao cumprimento da meta diária. Dependendo do tamanho do livro, vale à pena colocá-lo no bolso, a caminho do Maracanã, para ler naquela espera enfadonha antes da bola rolar. Mas é claro que a busca por lugares alternativos tem limite. Se você me encontrar numa boate com um livro debaixo do braço ou no bolso da calça, pode me internar num hospício.

A arte de perder as coisas

17 de agosto de 2010

Tatiei os bolsos da calça. Moedas, carteira e passaporte. Tatiei de novo. Moedas, carteira e passaporte. Faltava algo muito importante, mas eu precisava ter certeza. Enfiei a mão nos bolsos e retirei os mesmos utensílios que eu havia tateado antes. Senti a barriga congelar. Olhei novamente para as minhas mãos e já não tinha mais dúvidas, era a visão do inferno.

Depois da jaqueta, do MP3 player e da chave do cadeado da mala, perder a câmera digital Sony Cyber-shot 14 pixels que eu havia comprado três dias antes em Los Angeles era inaceitável. Era vergonhoso. Aquilo não podia estar acontecendo comigo.

Entre a jaqueta bege, o MP3 player e a chave do cadeado, a perda menos significante foi a chave do cadeado. Assim que eu cheguei ao albergue que eu estava hospedado em Las Vegas com mais dois amigos, perguntei na recepção se eles tinham alguma ferramenta capaz de arrebentar o cadeado da minha mala. Poderia perfeitamente ter deixado a mala sem proteção, mas como haviam outros hóspedes no nosso quarto, achei que era melhor não arriscar. O homem da recepção me emprestou um alicate gigante, da mesma altura de uma criança de quatro anos. Quebrei o cadeado sem qualquer esforço e comprei um novo, ali mesmo na recepção, por quatro dólares.

Sabia perfeitamente onde eu tinha perdido a câmera. Só não sabia se ela ainda estaria no mesmo lugar. Levando em consideração o intenso movimento da loja e a distância que eu teria que retroceder, as minhas chances eram bem pequenas.

Antes de chegar em Las Vegas, a gente dormiu duas noites num outro albergue, localizado em Santa Monica, Los Angeles. Depois de tomar alguns Jack and Coke (Jack Daniels + Coca-Cola) no ótimo bar Hooters, fechamos uma das noites jogando sinuca na sala comunal do albergue. Dei duas ou três belas tacadas, mas todas as outras foram sofríveis. Foi só na manhã do dia seguinte que eu percebi que tinha deixado o casaco em uma das cadeiras que rodeavam a mesa de sinuca. Cheguei esbaforido no local e o casaco não estava mais lá. Fui até à recepção e conversei com duas pessoas diferentes. O único casaco que eles tinham no “lost and found” eu não aceitaria nem de graça. Era pequeno,encardido e cafona.

Enquanto corria feito um louco pelo Ceasars Palace, eu pensava nas 133 fotos que eu havia tirado até então. A grande maioria era dispensável, mas eu já tinha conseguido juntar uma dezena de pérolas e três ou quatro diamantes.

Por mais que a jaqueta tenha sido mais cara que o MP3 player, aquele pequeno aparelho preto da Samsung modelo YP-P3 era a maior perda da viagem até o momento. Nunca vou esquecer das duas vezes que ele entrou em coma. Na primeira vez, ficou apagado por uma hora e na segunda, ficou totalmente inoperante por quatro dias. Eu já tinha até consultado uma loja, mas não fiquei satisfeito com os modelos pesados e robustos que me foram apresentados. Não simpatizo nenhum pouco com iPod, pelo menos até o momento. Durante esses quatros dias de coma, eu tentei diversas vezes fazer o aparelho ressuscitar. Após o banho, depois do jantar, na hora de levantar. Até que numa dessas tentativas, ele resolveu ligar novamente. Fiquei muito feliz. Foi um troço muito bacana mesmo. E o pior é que a culpa era minha. Tinha baixado um álbum do Morrissey na internet que estava corrompido e foi justamente na tentativa de ler essas canções que ele entrou em coma duas vezes. Mas assim que ele ligou depois de quatro dias morto, eu tratei de apagar o álbum inteiro, até mesmo as canções que tocavam, só para garantir que não teria mais qualquer tipo de problema.

Foi naquele pequeno aparelho que eu escutei a primeira mixagem do meu disco. Foi com ele que eu gravei algumas melodias que mais tarde se transformariam em canções que estão no meu primeiro disco. Foi com ele que eu gravei novas melodias que nunca mais poderão ser recuperadas. Além de tocador de MP3 e pen drive, ele também era um gravador, um animal de estimação, um filho, uma vida.

Entrei na Apple Store sem esperanças. O computador que eu havia usado para checar o meu e-mail era o mais visível de todos, o mais perto da entrada. Olhei para o Mac em questão e fiquei atônito. Não sei se eu merecia aquilo. Pensando melhor, eu certamente não merecia. Ainda mais depois das três perdas em apenas quatro dias de viagem.

Peguei a câmera, revi algumas fotos, a coloquei no bolso e surgiu uma nova preocupação. Mal deu tempo de curtir aquele momento de êxtase. Estava sem celular (deixei no Rio) e os meus amigos não sabiam que eu tinha ido procurar a câmera. Esqueci de dizer a eles. Precisava encontrá-los logo ou então só os veria no dia seguinte de manhã dormindo no quarto. Então eu saí correndo pelo Ceasars Palace, novamente feito um louco.

O que fazer para ser respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis

17 de julho de 2010

Super Mario Bros, Caverna do Dragão, carrinho de controle remoto, Banco Imobiliário, arremesso de papel higiênico pela janela, campeonato de arroto. Para um garoto de 12 anos, qualquer coisa – até mesmo fazer o dever de matemática – era mais interessante do que ficar segurando um calhamaço de papel cheio de letrinhas miúdas. E comigo não foi diferente. A essa altura você já deve estar se perguntando como pode um dever de matemática ser mais interessante do que ler. Pois veja que ao acabar o dever de matemática, eu estaria liberado para brincar, mas ao acabar a leitura, eu estaria liberado para fazer o dever de matemática.

Com o passar dos anos, o meu gosto pela leitura foi decaindo (se é que é possível decair algo que já está totalmente caído) à medida que os professores de português e literatura insistiam em nos enfiar goela abaixo escritores ainda mais chatos e complicados do que aqueles que nos foram apresentados sem sucesso na quinta série. Nunca me esquecerei de “Iracema”, livro de José de Alencar. Cada frase era um sofrimento, cada parágrafo uma tortura, cada página uma eternidade e cada capítulo eu não sei dizer, pois nunca cheguei ao fim do primeiro.

Vim de uma infância pré-reuripotteriana. A falta de um livro febril entre os garotos da minha idade pode ter contribuído para o meu gosto tardio pela leitura, que só veio mesmo quando eu já estava no fim da faculdade de administração. Cheguei a ter um namoro intenso e doentio com a leitura, mas foi só um namorico de verão. Mal durou três meses.

Tudo por causa de uma ideia que me veio à cabeça numa manhã de domingo: cientistas renomados são contratados pelo Vaticano para executar um serviço complexo e revolucionário capaz de mudar o mundo. Eu adoraria contar mais detalhes do enredo, mas não posso correr esse risco. Vai que um dia, quando eu estiver batendo botas, com a visão turva e a fala embargada, eu volte a achar a história genial e tenha vontade de enfim publicá-la? A ideia pode até ser medíocre, mas é minha e eu não dou pra ninguém.

Não sabia nem por onde começar, precisava de ajuda. Tomei coragem e liguei para um amigo da minha mãe que tinha mais de cinco romances nas costas. Ele me recebeu em sua casa num sábado chuvoso, às quatro horas da tarde. Fomos até à cozinha e ele me serviu um copo de suco de caju. Não fiquei irritado com as formigas que corriam feito loucas dentro do açucareiro, acontece nas melhores famílias, eu só me irritei quando ele disse que as formigas faziam bem aos olhos, que era pra eu não me preocupar se por ventura ingerisse uma ou outra. Como se aquela piada idiota já não tivesse sido feita por todas as avós do mundo.

Contei a ele as minúcias da história de ficcção científica e perguntei o que eu precisava fazer para escrever um bom romance, que fosse respeitado pelos imbecis e pelos não-imbecis. Ele foi firme e direto.

– Você precisa de três coisas, meu filho. Primeira coisa, escrever todo santo dia. Mas não basta escrever um poema, uma letra de música ou uma crônica, você precisa trabalhar todos os dias na porcaria do romance. Que seja uma única linha, mas tem que ser todo dia. Segunda coisa, ter sempre a mão um caderninho e uma caneta para fazer anotações. Não importa o lugar que você esteja, tem que ter o caderninho e a caneta enfiados no bolso traseiro da calça. Terceira coisa, você precisa ler muito, o tempo todo, sem parar.

– Mas você gostou da minha história?

– Pouco importa a história, garoto. A história é o de menos. O segredo está na maneira pela qual ela é narrada.

– Não vou ficar chateado se você dizer que não gostou.

– Com mil demônios, garoto, pare de chorar. O que eu estou querendo dizer é que uma ideia não é nada, porra nenhuma, zilch. A principal diferença entre uma pessoa de sucesso e uma pessoa medíocre é que a pessoa de sucesso coloca a ideia em prática. Tá cheio de cretino por aí com ótimas ideias.

Ele disse que ia ao banheiro e voltou com mais de dez livros. Jack London, Oscar Wilde, Juan Rulfo, Kafka, Poe, José Saramago, Tchekhov, entre outros.

– Acho que isso aqui está bom para você começar – ele disse.

– Muito obrigado pela sua ajuda. Gostaria de fazer uma última pergunta antes de ir. Ontem eu li cerca de dez páginas do seu último livro e fiquei impressionado. De onde você tira tanta inspiração?

Ele me olhou com desprezo. Fiquei assustado. Nunca o tinha visto daquele jeito

– Meu jovem, entenda de uma vez por todas. Inspiração é a puta que pariu. Ler é suor, é ralação.

– Eu acho que já li isso num livro. Dizia que escrever é 99% transpiração e 1% inspiração.

– Pois saiba que o autor deste livro é um idiota. Escrever é 100% transpiração!

O que deveria ser um estímulo para o meu ambicioso projeto, acabou sendo um balde de água fria. Mas ainda assim, conforme eu mencionei no início desse texto, passei quase três meses lendo e escrevendo de forma frenética. Mas foi justamente a leitura, ou seja, a descoberta dos clássicos da literatura que me fez perceber que eu nunca escreveria como aqueles caras, e para piorar, me dei conta de que a minha história aparentemente sensacional, para não dizer genial, era uma merda. Abandonei a escrita, abandonei a leitura, coloquei um meião e fui jogar futebol. Cheguei em casa exausto, tomei banho e liguei a TV. Foda-se a leitura, eu pensei. Isso é coisa de velho. Meus amigos não liam, ninguém lia. Não tenho culpa se eu nasci na geração errada.

Quase dez anos depois, sou tomado por uma nova ideia, quase tão ruim quanto à primeira, mas não desisto.

Quer dizer, pelo menos por enquanto.

Obs.: Este texto transita constantemente entre os campos da ficção e o da não-ficção.

Deus é gay.

3 de maio de 2010

Domingo de sol no Rio. Acordei meio dia. Liguei o computador para ver onde estava passando o novo filme do Woody Allen. Poucas opções. Unibanco Arteplex, 14h20, me pareceu interessante. Poderia assistir à final do campeonato paulista na sequência e ainda daria tempo para um almoço caseiro.

Foi só quando eu estava na boca do caixa que eu entendi porque diabos a fila da bilheteria era tão grande, visto que duas horas da tarde de um domingo de sol não era horário pra ninguém, a não ser eu, se embrenhar num cinema em Botafogo. O motivo era óbvio. Agora quem era cliente do Itaú também tinha direito a meia entrada. Até pouco tempo atrás, somente os clientes do Unibanco tinham esse privilégio. Fusão é fusão, não tem jeito. A Allianz Seguros que o diga. Perderam o posto de seguradora do Unibanco Arteplex para a Itaú Seguros.

Poderia citar aqui umas 20 vantagens de ir ao cinema sozinho. Uma delas seria a incrível facilidade para conseguir um lugar vago numa sessão praticamente lotada, como era o caso de “Tudo pode dar certo”. Sabe quando um casal de namorados, ao comprar suas entradas, pulam uma cadeira para ficarem mais à vontade, sem ninguém ao lado? Pois é. O universo está sempre conspirando ao meu favor nesse sentido.

Mas dessa vez não era um casal de namorados e sim duas velhotas, provavelmente amigas de longa data, daquelas que caminham todo santo dia no calçadão da praia esmiuçando abobrinhas. Aliás, a sala estava empesteada de gente velha, de modo que o ser humano mais jovem, sem sombra de dúvidas, era eu.

O filme de Woody Allen consegue ser absolutamente genial já nos primeiros cinco minutos, mas se eu contar o motivo, perde a graça. Aliás, se eu contar a história do filme, também perde a graça. Por isso eu separei para vocês um pequeno diálogo impagável de dois homens conversando num bar:

– Deus é gay – disse um deles, no momento em que a conversa tombava para o lado da religião.

– Não tem como, cara. Ele fez o universo perfeito. Os oceanos, o céu, as belas flores, as árvores em todos os lugares.

– Exatamente. Ele é um decorador.

A análise do perfil dos frequentadores de boate

14 de abril de 2010

Você já reparou que quando uma boate está um pouco mais vazia que o normal, muitas pessoas dizem que a noitada foi um fracasso, que o lugar não é mais o mesmo e que deveriam ter ido para a boate ao lado?

Pois é. A ausência de trinta pessoas num local escuro, fechado e barulhento pode desencadear uma série de decepções, como se isso fosse a coisa mais importante da noite.

Eu até entendo o lado dos homens e mulheres que vão a uma boate unicamente para beijar na boca. Em outras palavras, se tem pouca gente disponível para essa função, há de se convir que a night desses seres taradinhos não foi boa.

Mas e o que dizer das mulheres e homens que só saem pra dançar ou se divertir com os amigos? Por que diabos esses indivíduos precisam que a boate esteja cheia até o talo? Não basta que ela esteja mais ou menos cheia? (Veja que eu não estou falando de uma boate vazia, com 10 pessoas pastando pela enorme pista de dança. Concordo que isso é deprimente. Leia o troço direito. Se possível, releia o que eu escrevi. Obrigado.)

Refleti bastante no fim de semana acerca do perfil desses “bombantes dançarinos arrozes de boate” e cheguei aos seguintes motivos pelos quais eles preferem a discoteca cheia:

1) A fila do banheiro fica enorme: Nada melhor do que esperar trinta minutos para fazer xixi quando você está louco de vontade, não é mesmo?

2) O banheiro fede que é uma beleza: Tem coisa mais emocionante do que se sentir em pleno estádio Mário Filho num sábado à noite?

3) Mais gente pra dar toco: Para quem foi pra boate dançar, nada melhor do que perder metade do seu tempo se esquivando dos seres taradinhos. É ou não é?

4) Fila gigante pra pagar: Depois de dançar a noite toda e não se aguentar mais em pé, muito melhor pegar uma fila de uma hora pra pagar a conta do que ir direto pra casa. Pra mim isso é tão óbvio quanto o poder de criação do meio de campo da seleção brasileira. E pra você?

Vida de celebridade no twitter não é fácil.

24 de fevereiro de 2010

Pra quem acha que ser celebridade no twitter é uma maravilha, está redondamente enganado. Num primeiro momento pode até parecer interessante divulgar o seu trabalho e as suas gloriangústias diretamente para cem mil pessoas que supostamente te admiram e torcem pelo seu sucesso, mas, vamos fazer uma pequena pausa para respirar porque a frase está muito grande. Pronto. Calma. Respira mais um pouco. Agora vai. Então como eu ia dizendo, pode parecer legal num primeiro instante uma legião urbana de fãs acompanhando a sua vida, mas o que fazer com as milhares de mensagens (replys) enviadas por estes mesmos seguidores? Se o famoso não responder a ninguém, ele será tachado de antipático, metido e arrogante. Se ele responder a algumas pessoas, os que não forem respondidos ficarão furiosos e se ele responder a todos, não terá mais vida – passará o resto dos seus dias no twitter.

Fiz uma pequena pesquisa a partir das respostas dos famosos a anônimos no twitter e identifiquei 5 tipos de seguidores de celebridades:

1) OS PASSIVOS

Cliquei em alguns seguidores de famosos a esmo e verifiquei que muitos sequer haviam escrito alguma coisa em suas páginas. Outros até escreviam, mas não respondiam aos famosos, apenas aos próprios amigos (talvez porque não tenham coragem ou então não queiram importunar seus ídolos). Os passivos, ao meu ver, são a grande maioria.

2) OS BONZINHOS

Os bonzinhos são aqueles que raramente respondem aos famosos. Enviam uma mensagem positiva e que não exige resposta, como por exemplo, “adoro o seu trabalho”, ou “você é lindo”, ou ainda, “obrigado por existir”. Quer um exemplo? Então entre na conta da @_prit. No dia 28 de janeiro ela postou uma foto no seu twitpic com a VJ @marimoon da MTV. Veja que ela apenas diz “obrigado pela simpatia”, nada mais. E no seu histórico de twitts não encontrei outros replys destinados a apresentadora do cabelo azul.

3) OS INVEJOSOS

Os invejosos também respondem raramente, mas quando o fazem, enviam uma frase pesada, pronta pra derrubar o ego do famoso e deixá-lo com vontade de mandar um reply mais desaforado ainda, ou então bloquear o desocupado. Seja qual for a reação do famoso, o invejoso ficará muito feliz. É comum este anônimo invejoso comentar com os seus seguidores as consequências da sua infantil mensagem: “Galera, o fulaninho me respondeu, deixei ele puto KKKK”, “fui bloqueado pelo Beltrano hahahah” ou então, “não sabia que fulaninho não tinha senso de humor, ele me parecia equilibrado ufadagsydfydhah”. (esta palavra incomunicável ao lado seria a risada do idiota)

4) OS FANÁTICOS

Estes são de longe o pior tipo. Apesar de serem a grande minoria, costumam ser tão chatos, tão insuportáveis, que compensam os twitts não enviados pelos passivos. Escrevem mais de 10 mensagens para o seu ídolo por dia e exigem atenção total, como se fossem bebês recém nascidos. Vejamos o caso da @manu_recife. Ela mandou 50 mensagens para a @ivetesangalo pedindo, ou melhor, implorando para que uma foto do Fã Clube “Coração Iveteiro” fosse postada no blog oficial da cantora.

5) OS OPORTUNISTAS

Os oportunistas aproveitam “tags” que estão na moda como #4palavrasdepoisdosexo, desenvolvem uma frase super criativa do tipo “Jagger, I am pregnant” e disparam para centenas de famosos na esperança de que pelo menos um deles dê um RT (não sabe o que é RT? Então nem sei como leu o texto até aqui).

Mas afinal, o quê os oportunistas ganham com isso? 15 segundos de fama e um aumento significativo de 2 ou 3 seguidores por conta de sua frase exposta para cem mil pessoas, e claro, dependendo de quem seja o oportunista, este simples RT pode deixar o seu ego inflado para sempre.

Quem foi o asno que inventou o termo “de trás pra frente”?

3 de novembro de 2009

O correto não seria “de frente pra trás”? Dizer que um filme é “de trás pra frente”, na minha opinião, é afirmar que este foi filmado à partir do início até chegar ao fim, ou seja, não há nada de anormal nisso. No entanto, me parece sensato dizer que um filme “de frente pra trás” começa pelo fim e vai caminhando para trás, até chegar ao início.

 

E agora?