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O futebol e suas vicissitudes

18 de outubro de 2011

Hoje de manhã, a pedido do doutor Marcelo, fui fazer uma nova radiografia no meu dedo quebrado. Cheguei às sete e meia, mesmo sabendo que ele  só estaria lá às oito. A quantidade de idosos que frequentam a Cotrauma é impressionante e essa turma adora chegar cedo. Isso sem contar os que chegam antes da abertura do estabelecimento e ficam em pé do lado de fora, impacientes e nervosos. Mas isso é tão absurdo que nem entra nas minhas estatísticas. Vale dizer no entanto que com a extinção da fisioterapia, a quantidade de idosos caiu muito. Fizeram uma grande obra no primeiro andar e a clínica funciona temporariamente onde era a fisioterapia. Agora a radiografia é sobre a mesma maca que eu fazia exercícios de recuperação para o joelho, no ano passado, e para a virilha, esse ano. Todas as lesões, inclusive o dedo quebrado, foram fecundadas no campo de futebol.

Um amigo meu disse ao seu ortopedista que, com exceção do joelho, o corpo humano era perfeito. O profissional foi categórico. “O corpo humano foi feito para caçar gazelas no bosque. Não foi feito para jogar futebol”.

Pelo menos eu era o único cliente do ortopedista Marcelo. Para ser mais exato, eu era o único cliente da Cotrauma inteira. Abri um livro, para me ajudar a pegar no sono, usei o casaco de travesseiro e me acomodei perfeitamente com a cabeça apoiada sobre a mão que não estava lesionada. Alguns minutos depois, após acordar sozinho e me ajeitar na cadeira, uma mulher na casa dos quarenta anos, sorriso de recém ganhadora da Mega Sena e máquina 3 no cabelo, diz:

– Você quebrou o dedo, foi?

Se já não bastasse uma pergunta dirigida à minha pessoa naquelas circunstâncias, ainda tinha aquele irritante “foi” no fim da pergunta. Tentei sorrir com muita dificuldade. Provavelmente não o fiz.

– Sim. Jogando futebol.

– Posso ver o livro que você está lendo?

Você deve estar pensando que estou inventando tudo isso, mas eu juro que é verdade. A mulher sabia que eu estava dormindo e mesmo assim começou a conversar, como se eu fosse um cara que ela não via há 25 anos, desses que foi melhor amigo no colégio ou qualquer coisa que o valha.

– Pode.

Sabe aquelas pessoas que pegam o livro e passam horas analisando as insignificantes primeiras páginas, em vez de partir para a introdução, orelha ou algum capítulo? Pois era exatamente isso. Talvez eu seja o único chato dessa história, mas uma coisa é certa: não há nada de errado em querer dormir em vez de dialogar com estranhos numa sala de espera.

Então ela pousa os olhos sobre uma pequena dedicatória da minha namorada, que havia me dado o livro de presente.

– Você é casado?

– Não.

– Noivo?

– Não.

– O que você faz da vida?

– Eu sou jogador de futebol.

– É mesmo?

– Sim. No momento estou à procura de um clube. Eu estava jogando no Friburguense, conhece?

– É um time do Rio?

– Sim. Lá de Friburgo.

– Só conheço Vasco, Botafogo, Flamengo e Fluminense. Sou de Porto Alegre.

– Eu já joguei em Porto Alegre.

– Sério?

– Joguei nas divisões de base do Grêmio, mas o técnico era um mala. Cismou comigo e me cortou do elenco. Mas foi melhor assim. Lá eu não tinha família, amigos, comia mal, era frio. Voltei pra cá.

– Entendo.

– Acho que estão me chamando. Tenho que ir. Prazer em te conhecer.