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Uma odisseia na prova de auto escola

17 de maio de 2011

Entrei no carro. Bati a porta. Endireitei os retrovisores com a mesma destreza que eu ajeitava os pedestais de prato da bateria na época em que me apresentava ao vivo frequentemente. Já vi gravado em fita e tudo. Isso mesmo, fita cassete. Faz muito tempo. Termina a música, eu me levanto, mexo 2 milímetros na altura do prato de ataque Zildjian e me sento novamente no banquinho. Dou uma nova olhada, mas não gosto da posição do prato, que parecia perfeita quando eu estava em pé fazendo os ajustes.  Me levanto novamente e mexo, dessa vez, 1 milímetro e meio. Vale dizer que uma banda inteira composta por dois guitarristas, uma vocalista, uma percussionista e um baixista espera pacientemente pelos meus caprichos bizarros. Felizmente estes ajustes cirúrgicos se perderam completamente com o passar dos anos. O mesmo vale para os retrovisores.

Liberei o freio de mão. Liguei o carro. Engatei a ré. Percorri um percurso aproximado de 0, 0003 quilômetros.

– Para! Para!

(agora o verbo “parar” no presente da terceira pessoa do singular não leva mais acento)

Olhei indignado para o aplicador da prova.

– O que houve?

– Você esqueceu de botar o cinto. Perdeu 3 pontos.

– Isso quer dizer que…

– Isso mesmo. Você não pode perder mais nenhum ponto.

Eu ainda tinha que entrar na porcaria da vaga, sair com o carro da mesma vaga e dar uma volta no percurso oval com a presença de motoristas comuns, quer dizer, já gabaritados pelo Detran. E sem cometer mais nenhuma falta. O carro chacoalhava feito uma máquina de lavar. O meu pé direito parecia meio dormente por causa do nervosismo. Não sei bem o que houve. Só sei que lá pelas tantas, ainda tentando manobrar na vaga, a máquina de lavar pifou. Alguém tirou da tomada ou a luz do prédio acabou. Vá saber.

Olhei para o aplicador da prova com a mesma cara do Gato de Botas do Shrek.

– Liga logo esse carro, antes que algum colega perceba.

Tecnicamente eu tinha 5 pontos.

– Muito obrig…

– Se concentra aí garoto. Mais meio ponto e eu te reprovo. Não fala nada. E dá um jeito nesse carro. Balança mais que uma charrete guiada por um asno (na verdade ele não disse exatamente isso, mas achei que tornaria o texto mais interessante).

Não cometi mais nenhuma falta. Fui aprovado com (duvidoso) louvor. Demorei cerca de um ano para aprender a dirigir, ou melhor, deixar de ser uma ameaça constante para motoqueiros, caminhoneiros, motoristas de ônibus, pedestres e quem mais estivesse no meu caminho. Aproveito a oportunidade para agradecer a paciência de todos os amigos que estiveram comigo nesta difícil jornada iniciante, seja no banco carona ou no banco traseiro. Não sei o que era pior. Ver o perigo de camarote pelo banco da frente ou ficar no banco de trás e ver o perigo com menos exatidão. Pedidos inusitados como este eram comuns: “vê aí pra mim se eu posso mudar de faixa”. Este pedido assustava ainda mais os meus amigos. Eu dizia que era impossível olhar para o retrovisor e para a frente ao mesmo tempo. Quando os amigos se reuniam em 3 motoristas para 15 moleques irem ao cinema ou coisa parecida, era comum alguém dizer a um colega desavisado, “se você está à procura de adrenalina e fortes emoções, vai com o Pilha”.